A (apocalipso)
A (apocalipso)
 

Pollyana Moça que pague a conta!

Cassandra é aquela figura da mitologia grega que, muito gata e devota de Apolo, ganhou dele o dom de profetizar. Mas aí Apolo quis o teste do sofá do Olimpo, e a gostosa Cassandra recusou-se a fazê-lo. Chateado com o toco mitológico, Apolo lançou sobre Cassandra uma maldição: que ninguém jamais acreditasse em suas previsões. Daí que ninguém acreditou quando Cassandra mandou a real que aquele cavalinho-de-pau maroto, estacionado na porta de Tróia, era um tremendo presente de grego. Resultado: créu velocidade cinco em Tróia. Mas Cassandra avisou.

Pollyana Moça é uma mala sem alça deslumbrada. Personagem do livro homônimo de Eleanor H. Potter, inventou o Jogo do Contente, que até hoje é sucesso no Brasil.

Trechim da minha coluna da semana na Folha de S. Paulo, com agradecimentos ao leitor que, através de comentário deixado cá na semana passada, inspirou-me o uso da personagem otimista-cega de Pollyana Moça:

(...) Cassandra abriu os trabalhos, com a ironia que lhe é peculiar. "O inexplicado apagão foi só o começo. Falta água também. Se continuar, em breve podemos nos procurar na escuridão pelo malcheiro um do outro!"

Pollyana Moça rebateu, com o pouco de candura que a realidade lhe permite manter, começou a artilharia assim que o primeiro gole de uísque rasgou sua gargantinha delicada: "Querida, sempre há um aeroporto com portão de saída para quem prefere residir em outros países. A CNN mesma mostrou os apagões europeus, os norte-americanos... não ficamos em nadica devendo a eles! Somos tão bons quanto em questão de apagão! Não precisamos diminuir nossa autoestima, não precisamos de gente como você (perdoa a sinceridade, amiga), que só reclama, a quem não interessa vislumbrar o arco-íris, um futuro melhor que está se descortinando. E é tão belo esse futuro, ó, Cassandra!"

Cassandra tomou do uísque da amiga o que restava e retrucou: "Essa gente que só reclama" o faz porque tem motivos. Calar-se diante dos motivos não fortalece nossa "autoestima". Pelo contrário, incentiva a ignorância. Ninguém vive no País das Maravilhas. Mas não é porque o mundo inteiro também tem problemas que não devemos questionar a origem dos nossos.

No caso do apagão, por exemplo, quem preferir crer que foi causado por "raios", que se acomode com tal informação, meta a cabeça num buraco dentro da terra e "boa viagem".

"Não é digno país algum onde a crítica sobre questões nacionais é prescindida pelo seu otimismo."

(...)


Escrito por Cecilia Giannetti às 11h09

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Crônica, blog e jornalismo

Crônica não é reportagem. Isso é óbvio para boa parte dos leitores; outros ainda confundem os conceitos e assim, terminam por enxergar cauda longa em galo e crista vermelha em cachorro. Pra formalizar qual bicho é o quê, vamos lá:

Na minha coluna do jornal publico crônicas.

Crônica: "Texto literário breve, em geral narrativo, de motivos, na maior parte, extraídos do cotidiano imediato". 

O blog, por sua vez, é uma extensão da coluna. Uma espécie de "puxadinho" que construí cá online. Com links, comentários sobre cultura, comportamento, um pouco de política. Opinião. Ironia. Os temas são amplos: o que der na telha, entre livros, música (novos autores, bandas novas), videozins, séries de tv, um e outro filme, papos de boteco, enfim - aquilo de que nos ocupamos na web e na vida.

Sobre jornalismo, só um bisú: tenho preferência declarada pelo jornalismo literário, e curiosidade extra a respeito do chamado jornalismo Gonzo. Por estas e outras:

"Um estilo de reportagem baseada na idéia do escritor William Faulkner segundo a qual a melhor ficção é infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo - os melhores jornalistas sempre souberam disso." - Hunter S. Thompson.

"Eu não obtenho satisfação alguma com a velha e tradicional ótica do jornalista: 'Eu cobri a história. Eu dei uma versão equilibrada,'" afirmou o inventor e único praticante do jornalismo Gonzo, o mesmo sr. Thompson, certa vez em entrevista à revista Atlantic Unbound. "O jornalismo dito objetivo é uma das razões pelas quais a política na América tem podido se mostrar tão corrupta por tanto tempo."

***

Depois de tudo explicadim, que não se busque em todo post a cauda longa da reportagem, a crista literária da crônica e vice-versa e etcétera e tal. Nem por propensão à pertinácia ilógica, casmurrice desarrazoada ou ingenuidade excessiva exijam-se de um os atributos de outro. Ou não: uma coisa que se aprende com a internerd é não subestimar a imaginação que vive e respira do outro lado do monitor.

Escrito por Cecilia Giannetti às 17h34

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Versão brasileira




On nov 10th Brazil blacked out for 4 hours


The whole country saw its future


It was kinda crappy, just like its present

 

O maior mistério da nossa versão do seriado Flashforward norte-americano não é como algum cientista maluco do CERN teria causado os flashforwards, mas... que diabos é o "Seguro-Apagão".

O "seguro-apagão" (Lei 20.438) foi instituído em 2002, com a crise de energia no país. Cobrado mensalmente nas contas de energia elétrica, com a denominação de ECE (Encargo de Capacidade Emergencial), deveria ser utilizado para pagar o aluguel de usinas de energia termelétricas para que estas fiquem à disposição e, caso haja uma situação de escassez de energia no mercado, sejam acionadas.

 

"O consumidor pagou demais, e o governo federal ganhou dinheiro com o seguro-apagão".

 

Um "flashforward do passado", mais precisamente agosto de 2004:

"De acordo com o senador Leonel Pavan (PSDB-SC), há informações segundo as quais, mesmo com o seguro, suportado há mais de dois anos por todos os consumidores de energia elétrica, o Brasil corre o risco de um novo apagão em 2009. Ele lembrou que a própria ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, adiantou que o país precisa aplicar US$ 5,7 bilhões para escapar de um novo racionamento. Segundo a revista Época, informou ainda Pavan, o governo federal pode investir apenas 30% do total."

***

O governador de São Paulo José Serra, convidado através do Twitter a falar sobre o apagão à rádio Jovem Pam, durante a madrugada de quarta-feira: "O Twitter funciona mesmo!".

O Twitter funfa, é fato. Mas e O RESTO?

Escrito por Cecilia Giannetti às 03h12

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Berlim

Celebram-se hoje, 09.11.09, os 20 anos da Queda do Mauer. Calha de eu estar enfiada no escrevescreve de um romance que se passa em Berlim e, com isso, revirando as fotos e vídeos que fiz durante o mês que passei lá. 

Meu primeiro contato com Berlim, antes de viajar, foi através dos relatos de Joseph Roth. Ele me falou sobre "o ritmo frio e preciso desta cidade", sobre o "tipo de gente que só conhece trabalho e diversão". Recomendo o livro de Roth a quem nunca esteve em Berlim, aos que planejam visitar, aos que ainda não sabem que vão querer demais estar lá algum dia.

Mais fotos de Berlim no meu Flickr.

Minhas crônicas de Berlim estão aqui.

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 15h55

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O descobrimento da Alemanha, o encobrimento do Brasil

Infinita a lista de coisas berlinenses de que sinto falta. (Morei por um mês em Berlim, em 2007). Neste começo de verão brasileiro, o clima ameno está no topo delas, junto com o jeito cada-um-na-sua dos locais.

Uma gente que tira a roupa nos parques, quando agraciada por uma temperatura pouquinha coisa mais alta que o habitual (pra eles) - e mal nenhum vêem nisso. Se há sol, curta a pele; vista-se somente um bloqueador dos raios UV.

Que diriam os berlinenses da moça expulsa da universidade brasileira por usar pouca roupa? (Sobre encaixar na mesma frase a palavra "universidade" e a tal instituição, isso é muito esquisito, concordo).

Não sei... eles estão muito melhor ocupados com sua vida de ir e vir de bicicleta, comemorar as duas décadas que os separam do Mauer, tomando aquelas cervejas robustas cuja caneca vale por um bifinho. Estão lá muito felizes sendo e deixando ser. Esta, talvez uma lição de civilidade que só se aprenda depois de tanto karma ruim que aquela cidade já encarou.

Berlinenses respeitam hoje "detalhes" como a liberdade, imagino, porque passaram tantas décadas sem ela.

Não esquecem ou escondem nem os momentos mais hediondos de sua história; em Berlim, as marcas do nazismo e da Deutsche Demokratische Republik são exibidos em placas, nacos de calçada, museus, exposições ao ar livre.

Berlim promove o Descobrimento da Alemanha.

O Brasil, por sua vez, tem sido mais ativo em promover o Encobrimento do Brasil. E agora, talebânico, de moças em saias curtíssimas.

Tristes Tropiques virou Bizarro trópico.

***

p.s.: Os americanos do norte, agora em constante vigilância sobre o país das Olimpíadas de 2016, já deram seu pitaco a respeito da história descabida da aluna-de-rosa no New York Times [leia aqui, em inglês].

Escrito por Cecilia Giannetti às 02h04

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E a autora encontra a ferramenta de aprovar comentários

Confesso que estava achando estranho. Tenho postado todos os dias desde que comecei o blog, em 03.11.09, e... neca de comentário. Ué? Nem pra zoar minha foto algo amarelada ali no canto, ou a outra, que se vê ao clicar na amarelada, e é pose daquele tipo a que só os menos fotogênicos constumam recorrer - sabe, a pose de cacatua arrependida, a cabeça inclinadinha, algo compreensiva?

Até que nesta madrugada descobri-os. Havia comentários! Dezessete deles. Desculpem-me a demora em liberar sua publicação nos respectivos posts, agora que descobri o caminho das pedras não me perco mais. E obrigada pela força. ;)

p.s.: vo manda um salve po rafa meu truta q tá em estocolmo frio bragarai. vo manda um salve pro zander maravilha de companheiro de praça rusvel sp xurupita. vo manda um salve po alberto da maison chaplin que eu sempre leio e que já sacou qualé a minha read write run viajar e anotar. vo manda um salve pa marilia, pode seguir gata, é noise. vo manda um salve po parceirão babu, genio. um salve pa natalia sp, que bom que curtiu. um salve pa silvana, chega mais, vem po tuíter tb. um salve grande pro andre, que compreendeu o apocalipso e a evasão de privacidade, é noise. um salve po ricardo linhares, que dormia no carro na hora do almoço quando a gente trampava junto. Um salve pa parceira Bê, que todo dia me dá bom dia e boas notícias. Um salve po Márcio, mas num so filha do eduardo giannetti não, so da Ilha do Governadô! Um salve po W.M. Carvalho, que já me conhece de outras tretas. Um salve po leandro souza e po pedro destro. Tamo junto.

Escrito por Cecilia Giannetti às 01h53

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Animais literários

Trechim da coluna da Folha [03.11.09]:


TINHA acabado de me sentar num banquinho do Campo de Santana a aguardar, em sereno transe psicótico, pelo ApoCalipso que, rebolativo, nos engolirá, quando uma cotia sussurrou, com ar de mistério, segredo que no íntimo parecia desejar que muita gente viesse a conhecer através deste jornal:

- Psiu, escrevi um compêndio de minhas confissões e gostaria que a srta. escritora passasse este original a algumas editoras, por obséquio. Anote o número do meu celular e também meus Twitter, Gtalk, MSN, Facebook e Myspace, por favor...

Com o pedido senti meu corpo gelar, apesar dos 29 graus que castigam o centrão do Rio -chova ou faça sol, sobe do asfalto a quentura e os carros tediosamente engarrafados na avenida exalam aquela fumaça que distorce suas formas, como se as superfícies dos veículos dançassem molengas.

O fantasma de d. Pedro 2º estava atrasado, havia tempo para improvisar uma palestra à cotia e também aos demais animaizinhos e transeuntes que já se acumulavam em torno do banco de praça. Cada qual se aproximava tentando imprimir modéstia aos seus focinhos, trazendo uma primeira versão não revisada de suas respectivas autobiografias debaixo do braço. Ou da patinha, ou da asinha -variando de acordo com a espécie de bicho que esperava ter comigo uma entrevista.

- Bicharada do meu Brasil! -Entoei- Há tanta coisa por aí pra distrair a gente! Contar suas histórias, pra quê? Se o senhor, a senhora ou o seu animal de estimação por acaso sofrer do cacoete de autor, a pequena lista a seguir contém alguns procedimentos pra curar de vez a comichão literária...

Escrito por Cecilia Giannetti às 21h59

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Um filme caseiro pra lembrar cinema em falta

Em agosto deste 2009, quando Anselmo Duarte foi internado no Incor, Inácio Araujo aproveitou pra levantar esta bola no Cinema de Boca em Boca: "Cadê os filmes do cara?".

E mais, "Seria legal rever os filmes de Anselmo diretor, não só os que passam mais, como 'Absolutamente Certo', essa bela comédia, e, claro, 'O Pagador de Promessas', mas também 'Vereda da Salvação' (o melhor filme dele, Carlão [Reichenbach] sempre achou), 'Um Certo Capitão Rodrigo', que é mais fraco, e até 'O Crime do Zé Bigorna', que, pelo amor de Deus, é muito ruim. O Carlos Roberto Souza, curador do acervo da Cinemateca, diz que quase todo o Anselmo está preservado. A exceção é 'Quelé do Pajeú', cujo negativo parece que foi para a Espanha (era uma co-produção) e a Cinemateca está atrás."

Vale a pena gritar de novo.

p.s.: O Thiago Dottori está fazendo um flood do bem hoje no Twitter, contando as famosas histórias de Anselmo => http://twitter.com/thiagodottori.

[Vídeo: festa de aniversário de Anselmo em abril, quando fez 89 anos. Inácio: "Vocês dirão, caramba, nem o aniversário do Anselmo os caras sabem filmar mais. É verdade. Essa pan na escuridão é de doer. Mas, aqui entre nós, é melhor que esse didatismo da televisão. Já estava na hora de perceber que esse didatismo não ensina bulhufas, não?").

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 12h38

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Cidade-aberração

Comadre B.B., Condessa Buffet das Mídias Virgens, me contou que o romance Hotel Novo Mundo, da Ivana Arruda Leite, é O BICHO absoluto. Carioca como eu, B.B. - de melhor estirpe que esta insulana da Ilha do Governador, a Bruna Beber é nascida em Caxias, crescida em São João de Meriti e muito aparecida em São Paulo -, recomendou-me o livro através de um trecho irresistível pra quem conhece as pragas e as paisagens do balneário perdido:

Andar no Rio de Janeiro pela manhã, com essa luz, com esse sol, vendo o mar e essa paisagem deslumbrante chega a me dar raiva. Esta cidade é uma aberração. Não há como fazer jus a este cenário. Ninguém aguenta a responsabilidade de viver num lugar tão lindo. Em São Paulo você pode ser infeliz à vontade. A sua miséria se junta à miséria da cidade e vira tudo uma coisa só. Vive-se com mais naturalidade. São Paulo deixa você ser quem você é. O Rio é uma cidade para semideuses. Tô fora.

É leitura pra já, anotaram?

Escrito por Cecilia Giannetti às 20h17

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Enquanto "O Seminarista" não vem

 

Assista ao teaser do novo romance de Rubem Fonseca.

Escrito por Cecilia Giannetti às 21h29

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BRUTO NÃO AMA

A 14ª Parada Gay carioca foi sucesso mesmo com uma chuvarada encharcando as cerca de 200 mil pessoas que animaram o evento no último fim de semana. Para provar que a sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) significa mesmo alguma coisa nesta cidade ensolarada e algo esburacada, o Rio de Janeiro acaba de ganhar o título de melhor destino gay do mundo. O anúncio foi feito na 10.ª Conferência Internacional de Turismo LGBT após dois meses de votação no site TripOutGayTravel e através do canal Logo, da MTV norte-americana, especialmente voltado para o segmento LGBT. Eleito por mais de 100 mil entusiastas de nossas maravilhas, o Rio deixou Barcelona, Buenos Aires, Londres, Montreal e Sidney comendo poeira.

Mas o Rio é conhecido por seus paradoxos, a beleza e o caos, bla bla bla, e neste caso, não poderia ser diferente. Foi imediatamente após este fimde colorido (no bom sentido, com um "L" só), que bateu nos jornais a denúncia de agressão sofrida por um casal de frequentadores da boate Le Boy, em Copacabana, que apanharam de seguranças da casa ao deixar o ambiente às 5h da manhã, no dia 13 de setembro. O primeiro segurança a descer o braço no consultor de vendas de 29 anos e no professor, de 26, chama-se apropriadamente Jr. Bruto. Bruto teve a ajuda de outro segurança da casa pra fazer o estrago: fraturas, escoriações pelos corpos de ambos, 11 pontos na cabeça de um, outro 50 dias sem poder trabalhar.

A hipótese que levantei pra tentar dar algum sentido a esse absurdo todo, ainda que não tenha passado de uma criação da minha imaginação de novela mexicana, é que Bruto seria namorado de um dos dois rapazes, que viu aos beijos na pista da boate com outro; e, cego kill bill style, vendo tudo vremeio pela frente, por ciúmes espancou um e outro e pimba e pá, "Meu nome é Bruto e eu também amo!"

Mas não foi nada disso, é claro. Na verdade, Bruto odeia gays, apesar de trabalhar em uma das mais conhecidas casas noturnas gay do Rio. E ele e seu sidekick fizeram questão de dizê-lo ao casal enquanto davam a surra: "Veado tem é que apanhar" - repetiam.

Contradição é pouco 

O caso parece até coisa do Farmeganistão...

Mas não é. Veio de onde menos se espera. Ou de onde menos costumava-se esperar.

O Rio acaba de levar este título disputadíssimo de melhor destino gay, e o casal de rapazes acaba de levar uma surra por serem gays. Taí uma boa deixa para firmar na realidade o slogan/causa da Parada Gay do ano passado, NÃO HOMOFOBIA.

***

O que significa tudo isso, senão o próprio apocalipso?

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 21h51

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O vício e a salvação

Desde a primeira vez em que virei uma noite entregue ao vício, em 2000, eu já sabia de uma coisa: era mais forte que eu, era uma necessidade  insaciável e era gostoso demais. Eu nunca ia me livrar disso. Nunca.

Na época eu era estudante, usava saias do tamanho de um cinto e estagiava numa empresa em que toda a equipe estava na mesma onda, sabe qualé?... a gente chegava no trabalho no horário certo, mas naquele estado: denunciavam nosso desvio as olheiras profundas, o cansaço e o resquício de excitação na forma de um meio sorriso nos lábios por termos ficado na atividade na madruga.

Na época um jornalista chegou a publicar uma coluna censurando a depravação a que toda uma geração de jovens então se entregava sem o menor pudor:

"Isso é 'evasão de privacidade'", bradou.

Ora, nosso vício era passar a noite escrevendo em blogs e trocando ideia através dos hoje jurássicos ICQ e mIRC. Mas o jornalista estava falando de um barato diferente do meu, os blogs mais "pessoais". A maior parte desse tipo de gente, de fato, vivia e vive pra divulgar via web detalhes de sua vida íntima. E até hoje, passados quase dez anos do boom dos blogs ao estilo "Querido Diário" (que deram ao mundo literário Bruna Surfistinha, para ficarmos num exemplo mais conhecido) têm seus leitores. Os voyeurs de post são tão viciados na droga quanto quem a (pr)escreve.

O jornalista tinha certa razão ao vociferar contra os exibicionistas? Bem, cada um sabe do que gosta.

Passei por muitos e diferentes endereços na internet blogando longe desse gênero; nunca postei sobre um fim de namoro, intrigas e traições. Prefiro falar de música, cinema, festas, livros, seriados, novelas e rangos especiais, como o podrão vendido em frente à extinta casa de shows Ballroom, no bairro carioca do Humaitá. (Fecundo período para posts inspirados: teve até aquela noite inesquecível quando um mutcho loco Evan Dando saiu do Ballroom cambaleando depois de cantar todos os hits do Lemonheads e amanheceu na praça Serzedelo Correa, em Copacabana, tocando violão pros mendigos.)

Eu postava também minhas invenções. Meus primeiros contos e crônicas foram escritos em papel, mas meus primeiros contos e crônicas lidos por algumas centenas de pessoas foram os que postei na internet. Às vezes eram os mesmos dos cadernos, que eu digitava e passava ao blog - não eram "literatura de internet", mas textos que a rede ajudava a divulgar. Quando entendi o poder disso, não larguei mais o osso. Num país conhecido internacionalmente por não ler, saquei que era por aí que eu devia começar se não quisesse minha imaginação pra sempre guardada numa gaveta. A internet foi o vício e a salvação.

Na vida como na web

Uma coisa que talvez faça sentido confessar aqui sobre a minha vida pessoal é que eu me mudo muito. Comecei morando na Ilha do Governador, cujo cotidiano pode ser definido sem exageros como uma mistura de Barrados no Baile, Twin Peaks e Lost.

Em seguida, fui parar em Copacabana, que não ouso definir aqui em apenas uma frase. Depois, o bairro do Flamengo, nome do meu time de coração. Aí, Catete, em frente ao Museu/Palácio da República onde o presidente Getúlio Vargas certa noite, you know... bang-bang, matou-se.

Retornei a Copacabana. Arrumei minha trouxa e morei em Nova York. Voltei pro Catete. Fui pra Berlim e achei que lá faz um frio do cacete. Copacabana pela terceira vez. Laranjeiras. Flamengo again. São Paulo (Vila Mariana - dois apartamentos diferentes - e Praça Roosevelt). Back in Rio. E por enquanto é isso. Por enquanto.

Na internet meu blog já teve pelo menos cinco endereços diferentes - que eu me lembre. Chamou-se Consultório, Go-Gonzo Girl, Entreparênteses, Escrevescreve. Este aqui chega à casa dos Blogs da Folha batizado de "Apocalipso".

Achei o nome apropriado ao caos nosso de cada dia. Vivemos como se o mundo de fato fosse terminar em 2012, de acordo com recentes produções hollywoodianas e profetas meio marotos: rebolamos ao ritmo de tsunamis, crises econômicas e éticas, guerras étnicas, religiosas, civis (alô meu Rio de Janeiro!), um mundo em que cirurgias plásticas são gênero de primeira necessidade e faltam gaze e leitos nos hospitais. Aqui deixo de fora ainda muitas características deste admirável mundo tosco, pra não cansar demais a beleza de vocês. E sempre que o ritmo exigir, dançaremos cá no blog conforme a música, comentando do desempenho do Colisor de Hádrons à novela - a variedade de assuntos, espero, formando uma colorida estamparia na saia da moça que roda, roda, roda e anuncia, aqui, o Apocalipso.

Para CONEXÃO UMBILICAL, sigam-me no Twitter.


Escrito por Cecilia Giannetti às 20h02

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Blog Apocalipso A escritora carioca Cecilia Giannetti é colunista da Folha, em que escreve quinzenalmente no caderno Cotidiano.

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