A (apocalipso)
A (apocalipso)
 

A quem interessar, posto

Agora no endereço http://escrevescreve.wordpress.com

Escrito por Cecilia Giannetti às 14h00

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O Quinquagésimo terceiro Calypso

 

       "If you find your life tangled up with somebody else's life for no very logical reasons," writes Bokonon, "that person may be a member of your karass."

At another point in The Books of Bokonon he tells us, "Man created the checkerboard; God created the karass." By that he means that a karass ignores national, institutional, occupational, familial, and class boundaries.

It is as free-form as an amoeba.

In his "Fifty-third Calypso," Bokonon invites us to sing along with him:

Oh, a sleeping drunkard

Up in Central Park,

And a lion-hunter

In the jungle dark,

And a Chinese dentist,

And a British queen--

All fit together

In the same machine.

Nice, nice, very nice;

Nice, nice, very nice;

Nice, nice, very nice--

So many different people

In the same device.



[De Cat's Cradle, Kurt Vonnegut]

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 16h26

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Coluna da semana

 

Leia a íntegra aqui e um trechinho abaixo:

Enquanto procuro por um café de livraria que tenha tomada para notebook, imagino a rotina de um escritor que usasse pena de pato como instrumento de trabalho, pelos idos do século 19. Esse cara, acho eu, buscaria uma taberna onde pudesse se sentar e rabiscar à pena diálogos para sua nova peça de teatro. Lá, por algumas horas ao fim do dia, ele se ausentava da casa de alvenaria de pedra, onde mulher e quatro filhos alegravam o ambiente e puxavam com ele conversa. "Ué, se você o faz em casa, não é trabalho... Vamos falar da princesa! Viu só aqueles sapatos?"

Nessas horas o escritor sorria à esposa, afagava os moleques, que já começavam a queimar com vela seus papéis, e partia para a tal taberna. Isso não sem ouvir os votos de boa sorte da mulher, que espichava a cabeça pela janela para gritá-los: "Quem você pensa que é? O Shakespeare do Morro do Castelo?"

Aí esse homem andava um bocado até chegar à taberna, onde se sentava com um copo de um vinho produzido por imigrantes açorianos, consumido para justificar sua presença no estabelecimento. E lá ele ficava até que a inspiração o abandonasse ou quando os frequentadores se tornassem mais barulhentos que sua família. No começo, o dono da taberna achou muito instigantes as maneiras daquele freguês e chegou a comentar com um ajudante: "Olha só o malandro! Ele consegue escrever e, vez em quando, levar o copo à boca! Não te estarrece, ó, Ruviato, tamanho malabarismo?" "Creio que isso deve ter exigido muito treino...", respondia o funcionário ao patrão. Depois, habituados com as visitas daquele freguês, já não achavam nada demais que o sujeito fosse capaz de consumir algo e, ao mesmo tempo, escrever. Eram, afinal, comerciantes espertos da capital da colônia: já tinham visto de tudo.

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 20h04

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Tonio Kröger não vai ao baile

Pra quê? Dar de cara com a Ingeborg e o Hans rebolando os ensinamentos de quadrilha do mestre Knaak? Nem irá à praia, embora a meteorologia anunciada pelo widget do iMac garanta que hoje dá sol. E ficaria uma arara se acaso saísse e testemunhasse, neste sábado, um flashmob no bosque, com guerra de travesseiros ou pessoas vestindo apenas sapatos, meias e roupas de baixo; ou o George Clooney banhando-se no lago próximo à árvore onde Tonio se recosta com um livro sobre os joelhos. 

Trabalhava como quem trabalha para viver, mas como alguém que não deseja outra coisa a não ser trabalhar, pois que não se dá nenhum valor como pessoa e deseja ser considerado apenas como criador, passando de resto despercebido como uma sombra parda, como um ator sem maquiagem, que não tem nada enquanto não tem um papel a representar. Trabalhava em silêncio, trancafiado, invisível, cheio de menosprezo para com aqueles pequenos literatos para quem o talento era apenas um adereço social e que, pobres ou ricos, se pavoneavam selvagens e esfarrapados, ou ostentando gravatas exclusivas, convencidos de que levaram uma vida altamente feliz, digna e artística, ignorando que boas obras só surgem sob a pressão de uma vida ruim, que quem vive não trabalha, e que é preciso estar morto para ser realmente um criador. - Tonio Kröger, Thomas Mann.

 

 

 

Deixa quieto, Tonio. 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 07h55

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A medida certa

 
 

A medida certa

Trecho da coluna da semana na Folha de S. Paulo:

 

Se da habilidade de dar cabo de um assunto em tempo favorável eu mesma um dia tirei pouquíssimo ou nenhum proveito, disso não me orgulho. Hoje procuro não subestimar as oportunidades de bem-estar que essa perícia proporciona, e dela faço propaganda. (...)

(...) lembrei da utilidade do conceito graças a uma amiga morena, de cabelos dourados farmaceuticamente (caso raro em que a química não convida à vulgaridade, mas ajuda a natureza), recém-liberta de uma relação estável. Chegasse o homem de bom ou mau humor, no meio da noite ou só na semana seguinte -ela estava. Embora, às vezes, o paradeiro dele fosse desconhecido -ela sempre estava. A isso eles chamavam estabilidade, não sem certa razão.

Pouco antes de deixar o apartamento em direção a sua nova solteirice, bem situada na boca dos 30 (faz 29 anos sob o signo de touro, a moça da cabeleira dourada), ela abraçou a chance de tomar esse caminho tão pacífico quanto desprezado pelos que preferem alongar-se em debates estéreis: de um só golpe, terminou. (...)

A parte demorosa e cansativamente reavaliada que os levara até ali, afinal, já havia acontecido. Bastava olhar para trás, para os últimos meses juntos, e reconhecer: não estava bom para ninguém. O que ela não entendeu, então, foi por que ele não podia perceber essa configuração imensamente favorável, a condição de fazerem um corte rápido e limpo, e aproveitá-la também.

"Do jeito que eu vejo, a conta já "tava" paga: o garçom já tinha passado o cartão na maquininha e até aquele canhoto azul tinha sumido, amassado dentro da minha bolsa. Para que ficar agora sentado à mesa, quebrando palitinhos e discutindo o preço do couvert?"

Escrito por Cecilia Giannetti às 14h56

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Letras & Expressões

 
 

Letras & Expressões

[Música: "If I Could Write" - Sam Phillips]

 

***

 

Com agradecimentos à livraria, que vai fazer falta. 

Escrito por Cecilia Giannetti às 12h24

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Lembrete

 
 

Sugestão

 

 

 

Campanha da CEPA (Comissão Estadual Judiciária de Adoção) no mural do Metrô Rio

 

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 18h23

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Os substitutos

Pode ser considerado traição quando a gente se torna viúva e ainda ama o falecido - mas mesmo assim busca seu substituto, e até... experimenta candidatos?

Já me sentei num e noutro, mas cada qual apresenta seu problema. Nunca os ruídos que fazem, isso não. Como já devem saber, porque me dedurei no jornal, sou escrava de ouvir a conversa alheia em lugares públicos (não atingi ainda a sofisticação das escutas plantadas em linhas telefônicas ou samambaias na sala de jantar dos vizinhos.) O que me leva a cafés de livrarias e de cinemas, onde aproveito para escrever, enquanto fico sabendo melhor como vai a vida dos outros.  

Ontem, saindo de uma reunião que acontecera de madrugada (9h), acabei passando novamente em frente à Letras & Depressões (Já falei dela aqui); desta vez não vi apenas meia dúzia de livros e revistas pingados: as portas já estavam mesmo baixadas, o lacre de ferro definitivo.

Lamentado seu desaparecimento, rei morto/rei posto: procuro sua sucessora, a livraria que poderá tomar a função de aturar escritores, estudantes, leitores em geral ficando de bunda quadrada em suas cadeiras, a escrever e beber café numa de suas mesinhas. Grande honraria será à escolhida. Tenho certeza de que é mesmo esse tipo de coisa que os donos de livrarias imaginam com ardor e desejam para seus estabelecimentos quando inauguram esses espaços. (É preciso inserir aqui o sinal proposto pelo Ziraldo para caracterizar ironia ou a gente já tá numa boa em relação a isso?)

De qualquer maneira, não sou a única a procurar um café-com-livraria para trabalhar e a conversa com os leitores cá do blog tem provado isso.


Paris era uma festa, Hemingway, but dammit... hoje não devíamos poder recarregar nossos notebooks nos cafés?



Mas hoje em dia, que ninguém mais escreve em papiro, tendemos a utilizar notebooks. Por isso o café-com-livraria ideal deve oferecer algumas mesas próximas a tomadas para que a gente recarregue o instrumento de trabalho (não, senhores, repito, não se trata mais da caneta-tinteiro! Não mais talhamos em pedra! Não escrevemos sobre papel de pão desde que nos libertaram dos manicômios!).

O café-com-livraria ou a livraria-com-café que hoje colocar à disposição tomadas para nossos notes leva de brinde... NÓS! Ora, quem? Seu movimento, sua alegria, seus clientes. Sim, porque, uma vez ali, escrevendo, bebendo seu cafezinho, o cliente COMPRA.

Isso tudo para contar a vocês que, sim, já estou de olho num e noutro local para chamar de meu - meu espacinho pra eu escrever minhas coisas enquanto escuto o povo das mesas em torno falar da gloriosa vida dos outros. Mas estou apenas de olho. Lá não me sento ainda. Justamente por faltarem as tais tomadas. 

Wi-fi, então, nem se fala... 

Mas tenho certeza que o pessoal vai resolver essa parada para a gente. E Paris será aqui (tá, menos, Giannetti, menos). 

[p.s.: Mas e a Praça Paris, hein? Esta é, e ninguém escreve com notebook lá, I wonder why...]

***

Enquanto falamos em livrarias e tomadas e wi-fi, pensemos ficção científica, senhores; pensemos SpaceBlooks!



Vai rolar na Blooks Livraria um ciclo de bate-papo sobre ficção científica com autores e leitores reunidos em torno da produção carioca de ficção científica e o espaço conquistado pelo estilo no mercado editorial. Temas: viagens no tempo, colonização de outros mundos e criaturas pan-dimensionais. 

O leitor quer saber se pode ir vestido de Spock? Pode. A livraria comunica que seus encontros são todos muito informais. O debate é aberto. O coração é grande. O amor é infinito. O universo também.

Spaceblooks acontecerá em maio na Blooks (Praia de Botafogo, 316, no Cinema Arteplex Unibanco de Cinema) e contará com a presença de gente que produz, escreve e gosta de conversar sobre o tema:

Dia 6 de maio, 19h | Cinema e Ficção Científica: o escritor e roteirista Bráulio Tavares, o animador César Coelho, o jornalista do Globo Rodrigo Fonseca e o jornalista Eduardo Souza Lima, o Zé José.

Dia 13 de maio, 19h | Ficção científica na Internet: Os escritores Fábio Fernandes, Ana Cristina Rodrigues e Saint-Clair Stockler expõem seus sucessos e vitórias nesse território de bravos.

Dia 20 de maio, 19h | Steampunk: O escritor e editor Gérson Lodi-Ribeiro, o ilustrador Alexandre Lancaster e o multimidiático Fausto Fawcett falam sobre suas visões de passado na última mesa da noite.

A curadoria do evento é do escritor Octávio Aragão e Toinho Castro. 

Escrito por Cecilia Giannetti às 11h12

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Observatório de cidades

Acabei de criar um perfil no http://www.cidadedemocratica.org.br. A participação do Rio de Janeiro no site colaborativo ainda me parece tímida em relação, por exemplo, a de São Paulo no espaço, onde são abordados problemas do local onde se vive, apresentadas e discutidas propostas e (é, acontece) encontradas soluções. O Rio, onde moro, anda falando de seus lixões, da criação de estações digitais, do asfalto estilo queijo suíço que é uma verdadeira praga por aqui, de coleta de lixo, transparência pública... Taí, parece uma espécie de Orkut em que o "umbigo" é seu bairro, sua cidade - com integração de cidadãos e parceiros, como o Governo do Estado São Paulo. 

É fácil se inscrever e usar; na dúvida, ó:

 

[No Twitter, #follow @cidademocratica].

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 09h51

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Balde de água fria (temporário) na Hot Fair

 
 

Balde de água fria (temporário) na Hot Fair

"Uma feira erótica, sensual, gostosa e que não é pornográfica" - Cuma? Bom, esta é a promessa da turma da Hot Fair, primeiro evento desse porte e nicho a acontecer no Rio de Janeiro. 


Durante quatro dias - a princípio, ocorreria entre 29 e 30 de abril e 01 e 02 de maio - a feira movimentará performances, palestras, workshops o_O desfiles de moda íntima & fantasias eróticas e também concursos. O evento seria no Clube Monte Líbano, mas a Prefeitura do Rio de Janeiro teria indeferido a realização da feirinha. Mas, garantem, a Hot Fair vai tirar esse atraso logo, logo. Vale a pena esperar (divertido é): programação prevê ainda espaço para massagens, outro para você se esburacar com piercings, pintar aquela tatuagem bonita de libélula ou símbolo chinês que todo mundo tem (just kidding, vê se faz uma coisa bonita, pô) e um tal de Castelo do Fetiche... sem contar com o Espaço Voyer.


E mais: body painting, pole dancing, cineminha com exibição de animações erótica, happy hours e festas temáticas para a galera se integrar/entregar, e, claro, produtos eróticos pra levar pra casa. 


Ou seja, amigos, se vacilar, o jacaré abraça. Anota na agenda, ou no post-it da geladeira.

Escrito por Cecilia Giannetti às 01h15

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Pré-Apô #1

 
 

Pré-Apô #1

 

 

 

[Purezinha antes do Apocalipso]

 

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 08h21

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400 Contra 1 - A História do Comando Vermelho

Aqui vai um adendo à minha coluna da semana na Folha de S. Paulo.

400 contra 1 estreia nos cinemas no dia 6 de agosto, e, apenas com a divulgação do cartaz e do trailer do filme na última semana, já divide opiniões: pesquisa realizada por um jornal carioca chegou a registrar 44,89% de votos contra a exibição do longa. Comentários em blogs e sites de notícias também não deixam barato. 

"Se teve muita gente querendo ser policial porque viu o filme do BOPE [Tropa de Elite], agora vai ter muita gente querendo ser bandido porque viu o filme do Comando Vermelho," escreveu Alexandre de Souza. 

 

No DiáriodeumPM.net, Alexandre, policial militar, 25 anos, dá voz ao desconforto que causa o tema: "Vão romantizar o bandido? Mas é claro que vão! (...) Filme é filme. Filme é obra de arte, e deve ser encarado como tal."

 

 


Abaixo, três trechos que selecionei de 400 contra 1, livro autobiográfico de William da Silva Lima em que se baseia o roteiro de Victor Navas [Cazuza - O tempo não pára] e o filme de Caco de Souza. 

 

No primeiro momento, William conta como começou a roubar. Depois, fala de como presos comuns teriam tido seu primeiro contato com o ideário dos presos políticos. Em terceiro, relata como voltou ao crime depois de perder um emprego em uma gráfica/editora. 

 

"Ando atento pelas ruas, olhando tudo. Não quero, nem posso, voltar, e o risco que corro é apenas necessário para sobreviver. Ando rápido, mas não estou indiferente. Vejo o menino que dorme seu sono pesado, fraqueza, sob a marquise de um belo prédio, coberto de jornais e de roupas rotas, molhado pelos pingos da chuva que cai. Que vida lhe devam, irmão! 

 

Que posso fazer? Acordá-lo? Conversar com ele? Dar-lhe trocados? Incentivá-lo a não se entregar, resistir, descobrir seu rumo próprio? Quando dou por mim, já segui em frente: o fugitivo não pode parar, nem envolver-se em situações de que não conhece o final. Mas continuo vendo e, principalmente, pensando. Vejo o senhor que passeia com seu cão - forte, bonito, bem nutrido, protegido da chuva - e contorna, sem lançar um olhar, o minúsculo corpo retorcido pela ao do frio. Como o operário da música de Chico Buarque, o menino apenas atrapalha o trânsito...

 

Sigo pensando como é difícil começar a contar nossa própria vida. Brás Cubas não sabia se iniciava suas memórias pela cena de seu nascimento ou a de sua morte. A mim não são dadas tais opções: personagem real, não morri e tampouco me recordo de como nasci. Minha primeira lembrança, ironicamente, já envolve polícia e justiça. 

 

Fui gerado por um daqueles amores fadados ao erro: paraibana do interior, filha de índia e de camponês, ainda adolescente minha mãe fora mandada morar em recife, na casa da famlia de meu futuro pai. primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho, ganhei o nome de William em homenagem aos amigos americanos, que então combatiam na segunda guerra mundial.

 

Durou pouco o casamento de meus pais. Separados, passei a ver minha mãe em visitas, por decisão da justiça. Num belo domingo, levou-me para tomar sorvete  fugiu comigo para a casa de seu pai, cortador de cana numa usina próxima à  cidade de Escada. Eis minha mais forte lembrança de infância: meu pai, um tio, dois policiais fardados e um homem estranho - creio hoje, oficial de justiça - apareceram por lá, uns seis meses depois, e me levaram de volta para a casa dos avós paternos. Não devo ser amargo. Com meu avô aprendi a andar com meus próprios pés pela cidade.

 

De minha avó recebi atenção e carinho. Gostava deles, mas estava com a cabeça confusa e o coração saudoso.

 

Meu pai foi tentar a sorte em São Paulo e se casou com uma moça que conheceu na viagem. Meu avô morreu em seguida, deixando um vazio imenso e o pretexto necessário para que meu pai solicitasse, por carta, que eu fosse ter com ele. Viajamos - eu, minha avó e uma irmã de criação. Ambas ficaram no Rio, em casa de outra tia, enquanto eu seguia em frente.foi dura essa nova separação: sentia-me protegido na companhia da avó e deslumbravam-me as luzes do Rio, vistas pela primeira vez na noite em que desembarcamos no cais. Continuei a viagem a contragosto, pressentindo o engano. Tinha razão em meu sentimento de criança: em São Paulo, seguiram-se confrontos com a mulher de meu pai; perda de um ano de estudos e, finalmente, um tumultuado retorno ao Rio. Pilares foi o bairro carioca onde primeiro morei. Avenida Suburbana, Abolição, Méier, jogo de bola em Inhaúma - enfim, vida nova, logo consolidada pelo ingresso no instituto (...) onde iniciei o segundo ano primário. Durou pouco. Em fins do mesmo ano, meu pai me reclamou de volta, para nova tentativa. minha av tinha certeza de que não daria certo, mas nada pôde fazer. O fracasso não demorou, e a partir dele fiquei sem um porto seguro: pai, mãe e tias tinham, cada qual, suas vidas, seus problemas, suas limitações. Concluí o primário, mas, sem vaga em escola pública, não pude prosseguir os estudos. Com 12 anos, era preciso começar a ganhar meu próprio sustento, para não depender de ninguém.

 

Meu primeiro emprego foi num laboratrio de prtese, onde comecei fazendo entregas e pequenos serviços. Aos poucos me inteirei do ofício e, fazendo as coisas com gosto, virei ajudante. Compreendia então que cada um cuidava da própria vida e já não depositava expectativas em grande ajuda do pai, motorista de ônibus sempre às voltas com dinheiro de menos. Nunca tivemos uma amizade de fato, e prova disso são os 25 anos que não o vejo. Tratei de ganhar meu sustento, pagar minhas próprias despesas, embora fosse menor.

 

O centro de São Paulo me fascinava. Muitas vezes dormi na Praça da Sé, assistindo então, em cada manhã, como acorda a grande cidade, como se tensiona gradativamente, como cai esgotada depois que o sol se vai, como renasce na noite. Aos 15 anos já desejava trabalhar por conta própria, mas me faltava o capital inicial. Tive então, pela primeira vez, a ideia de que poderia conseguir dinheiro roubando. Empregado em um escritório de proprietários de imóveis, observei a rotina e arquitetei um plano minucioso, que envolvia dois cmplices, para roubar recibos de  pagamentosde aluguis e fazer em seguida as cobranas na rua - essa era a rotina -, antes que percebessem o desfalque. Saí do emprego e detonei o plano, que obteve pleno êxito, rendendo, para cada um, a fabulosa quantia de vinte mil cruzeiros, dos velhos. pude ento, finalmente, comer num restaurante cuja vitrine de frangos sempre me fascinara. Depois, comprei uma bola de futebol e um par de joelheiras para o time em que jogava, escondi o que restou e iniciei meu prprio negcio, revendendo, nas feiras, bibelôs revestidos de pelúcia. Bons tempos, cheios de iluso de independência. Independência absoluta: forte desejo, que talvez me tenha reduzido, pela maior parte da vida, condição de prisioneiro."

 

(...)

 

"Em 1964 começaram a chegar os primeiros presos políticos atingidos pelo golpe militar. De início, eram alguns militantes sindicais, mas o contingente logo engrossou com a chegada dos participantes da rebelião militar de Brasília, conhecida como Revolta dos Sargentos, movimento deflagrado antes do golpe para protestar contra a inelegibilidade dos sargentos para cargos eletivos. A eles, se juntaram depois os integrantes da associação dos marinheiros, liderada em 1964 pelo Cabo Anselmo, hoje desmascarado como agente provocador. Presos comuns têm, no mundo inteiro, certa tradição de adesão a movimentos revolucionários. Aqui no Brasil, por exemplo, a massa carcerária extraiu muitas lições do contato havido na década de 1930 com os membros da Aliança Nacional Libertadora encarcerados na Ilha Grande. Quando os presos políticos se beneficiaram da anistia que marcou o fim do estado novo, deixaram nas cadeias presos comuns politizados, questionadores das causas da delinquência e conhecedores dos ideais do socialismo. Essas pessoas, por sua vez, de alguma forma permaneceram estudando e passando suas informações adiante."

 

(...)

 

"Fui solto, em 1965, em livramento condicional. Na cabeça, muito idealismo e poesia; na prática, a necessidade de sobreviver sozinho, sendo um marginal. Saí decidido a no procurar a família. Levava uma carta de apresentação de um preso político a uma gráfica e editora onde havia gente de esquerda. Consegui trabalho com eles, mas não me senti bem. Fora contratado por favor, a empresa estava beira da falência. A expectativa de desenvolver meu lado intelectual e político frustrou-se. Morando num quarto de penso na rua Francisco Muratori, na Lapa, acumulei decepções, transformadas em desespero quando a gráfica efetivamente fechou. Para sobreviver, resolvi assaltar, voltando a trilhar o caminho que me levaria de novo - reincidente -  prisão, com mais seis anos pela frente. Novamente, Bangu. Rebelei-me de vez. Dizia não a qualquer preço, e essa característica - a que se denomina "periculosidade" - o sistema carcerário não perdoa."

 

 

***

 

Como isso virou a própria história de uma das facções criminosas que mais exerceu influência no Rio de Janeiro na década de 1990... será que o filme dá conta? 

 

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 09h32

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Não é carnaval nem nada (bem longe disso... dá uma olhada no jornal: tá mais pra halloween), mas vale o registro: na foto acima, retratado em painel de azulejos com 30m x 2,20m, do arquiteto Urbano Iglesias, a homenagem à Banda de Ipanema, declarada, em 2004, patrimônio cultural da cidade. Fica na estação de metrô da Praça General Osório e seu destaque, ao menos pra mim, são os dizeres que a Banda ostentava em estandarte e que, apesar de sugerirem coisa complexa e imponente, nada significam: "Yolhesman Crisbeles".

Foi Jaguar quem esclareceu de onde veio essa coisa estapafúrdia, adotada como lema, no simpático livrinho Ipanema (coleção Cantos do Rio, editada pela Relume Dumará, e leitura obrigatória pro carioca e pro turista):

"Frase cabalística que um maluco beleza escreveu numa tabuleta com a qual perambulava pela Central do Brasil. (...) O que nos deu muita aporrinhação; agentes da inteligência (risos) do exército achavam que eram mensagens subversivas em código."

Escrito por Cecilia Giannetti às 23h17

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5x Favela, agora por nós mesmos

Projeto de Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães, anunciou ontem sua exibiçã em uma das sessões especiais do Festival de Cannes, que acontecerá entre os dias 12 e 23 de maio.

 

"Vamos fazer tudo que tem que fazer pra esse filme ser um puta filme técnica e artisticamente (...)

tem que ser um exemplo pra outras pessoas verem que é possível fazer." - Cacá Diegues

"Cara, eu tô doido pra filmar logo. Engraçado... eu não tenho medo, eu quero filmar, quero ir pro set" - Luciano Vidigal, diretor de "Concerto para violino".

O projeto 5 x favela, Agora por nós mesmos começou há cerca de três semanas e reuniu mais de 80 jovens de favelas cariocas, selecionados através de oficinas de roteiro e de técnicas de realização cinematográfica, para criar um longa-metragem composto de cinco histórias que refletem diferentes facetas do cotidiano dos moradores dessas comunidades - com a promessa de fugir a representações estereotipadas.

Fome de filmar - já é mais que meio caminho andado.

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 02h29

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Raspa de barril

Absence of the Hero, novo volume póstumo de textos de Charles Bukowski, traz um ou outro repeteco, material que já saiu em 2008 no Portions From a Wine-Stained Notebook (ambos lançados pela City Lights, de Lawrence Ferlinghetti). Os contos mais que sobrevivem: levando em conta o que diz o Village Voice, alguns até melhores por não abusarem da sátira desbragada. O resto são histórias de tumultos, bebedeiras, mulheres e compromissos da "vida de escritor" que ele gostava tanto de levar quanto de descrever. Assuntos-chave da obra do cara.

Textos reunidos em Absence*, parte deles há décadas sem circular:

  • The Reason Behind Reason
  • Love, Love, Love
  • Cacoethes Scribendi
  • The Rapist's Story
  • 80 Airplanes Don't Put You In The Clear
  • Manifesto
  • Peace, Baby Is A Hard Sell
  • Examining My Peers
  • If I Could Only Be Asleep
  • The Old Pro
  • Review of Ginsberg/Zukofsky
  • Bukowski On Bukowski
  • Notes Of A Dirty Old Man
  • The Absence Of The Hero
  • Christ With Barbecue Sauce
  • Ah, Liberation, Liberty, Lillies On The Moon!
  • The Cat In The Closet
  • Notes Of A Dirty Old Man
  • Sound And Passion
  • I Just Write Poetry So I Can Go To Bed With Girls
  • The House Of Horrors
  • Untitled Essay On d.a. levy
  • Henry Miller Lives In Pacific Palisades And I Live On Skid Row, Still Writing About Sex
  • A Forward To These Poems
  • The Outsider
  • Vern's Wife
  • He Beats His Women
  • "Notes Of A Dirty Old Driver Of A Blue 1967 Volkswagen TRV 491"
  • The Big Dope Reading
  • East Hollywood: The New Paris
  • The Gambler
  • Ladies Man Of East Hollywood
  • The Bully
  • The Invader
  • Playing And Being The Poet

 

Última gota, pinga forte.

 

[*Sobre "Notas De Um Velho Safado" (Notes Of A Dirty Old Man"): há mais de um trecho deste pelas meiúcas do livro.]

 

***

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 10h18

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PERFIL

Blog Apocalipso A escritora carioca Cecilia Giannetti é colunista da Folha, em que escreve quinzenalmente no caderno Cotidiano.

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