A (apocalipso)
A (apocalipso)
 

Aí nessas carnes

“Olha, o mundo hoje é gay. Tu vê isso aqui...”

Seria uma longa lata de energético pra mim, é proibido entrar com ela na Sapucaí. O segurança de uma das inúmeras entradas do Sambódromo discorria sobre o tema “homossexualidade no Brasil”. Aula 1. “Antes, há muitos anos atrás (sic), eles andavam quietinhos, cada um na sua, só colavam em mulher, nas amigas ...”. O segurança não está familiarizado com o termo “fag hag” nem com profundas mudanças culturais ocorridas nos últimos 20 anos.

“Cada um, cada um”, resmunguei, bebericando meu energético à base de testículos de touro ou sei lá o quê. O fortão seguia com seu discurso. Aula 2. “Agora, aqui, eles (os gays) são maioria, andam soltos, aos bandos. Quer dizer o quê? Que tá liberado, né?”

Não tive certeza se compreendia a questão proposta pelo homem, lá do alto dos 1,99m dele. Então, antes, não estava “liberado”? Em 1824 a homossexualidade deixou de ser considerada crime no país. Lei, ok. Porém, a mentalidade... um carro alegórico quebrado.

A entrada ao setor 2, bem antes de qualquer visão estupenda da escola que venha atravessar a Avenida neste ano, serve de alerta: Carnaval é carne, carnaval é corpo. Aula 3, a liberdade toma as rédeas da conversa: a paranóia a respeito da opção sexual das pessoas, tão evidente nos comentários do guardião da portaria, não tem vez aqui. A nóia com a qualidade do corpo em exibição, esta sim, é mais agigantada que os peitos da Sheyla Hershey.

Uma mulata altíssima passa trajando, parece, apenas brilho pintado sobre o corpo. Nenhum peso existencial ou corporal excessivo que comprometa seu equilíbrio e o do universo que gira em torno dela. Tamancos descomunais, asas de anjo nos pés, pureza e tentação num só ser purpurinado.

Para cenas assim é que transpiram nas academias de ginástica lotadas o ano inteiro, para elas existem colágeno, mesoterapia, lipo e drenagem linfática, procedimentos mais corriqueiros que tomar aspirina. O segurança homofóbico estava duplamente errado: ainda há muitos homens hetero cá dentro, e mulheres idem dispostas a esculpir-se por eles, pelo carnaval.

Carnaval é carne, carnaval é corpo, sim. Pra quem vê de fora, os gringos, somos um alegre povo que adora tirar a roupa, numa terra calorenta, vivendo de praia e samba. Balneário sem grande produto econômico que não o turismo e a passarela do samba, o que de fato dará mais dinheiro caso um dia surja algum político ciente da gravidade do problema de segurança deste paraíso.

Não acuso de fútil a festa da carne nem a praia, as areias, a água verde-azul e o sol fiel. Somos todos convidados à perfeição absoluta pareada à natural imperfeição que habita esses mesmos lugares; convivem num só desfile a evolução mais matematicamente exata de alas e um buraco vergonhoso entre elas. Uma celulite indelével na coxa de uma atriz pseudo-passista. Todo o investimento e o sonho de um ano inteiro posto a perder ou a levar os vencedores a mais uma semana de comemorações com muita carne churrasqueada e cerveja. Depois, de volta à malhação.

Escrito por Cecilia Giannetti às 00h25

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Conceiçãaaaaao!


Escrevo um livro, mas trabalho nas horas vagas. Não por hobby, claro. Como revelou João Ubaldo Ribeiro ao público em determinada Bienal do Livro, salvo casos de best-seller absoluto, escritor não vive de sua literatura. Embora essa seja verdade conhecida por autores de todos os tempos, na ocasião o público fez "ohs!" estupefatos e algumas senhoras até compraram cinco exemplares do mesmo livro de João Ubaldo "para ajudar o autor". Portanto, como eu ia dizendo, à moda de vários antes de mim, trabalho na imprensa - e já trabalhei em redação de jornal (o que hoje não tenho feito). Não é novidade no mundo dos escribas, nem configura atentado contra minha ficção.

Aqui vai uma notinha leve, o blog serve pra isso também. Às vezes, como agora, ele permite que se faça uma quase-crônica, deixa desintoxicar. Lavar a língua com um papo de boteco (ainda que online) e aí voltar pras histórias dos personagens do livro novo, que eu quero contar.

Quando, empolgada com uma biografia de Hemingway, decidi que trabalharia como jornalista (frase tipicamente mentirosa, já que 90% das pessoas são obrigadas a escolher qualquer troço aos 16 anos só pra que parem de encher o nosso saco), eu sabia que a profissão me levaria a coisas que as pessoas sãs não fazem - como, por exemplo, ficar de plantão no TSE aguardando o resultado das eleições. Fiz isso duas vezes e creio ter sido pior que plantão em delegacia. Ou coisas que eu, em circunstâncias normais, evitaria fazer, como a matéria de uma revista descoladex que me pôs a virar noites durantes semanas conversando pela internet com viciados em sexo virtual. Suspeitava ainda que encontraria gente inconformada com "o descaso da mídia", como a diretora de teatro que certa vez telefonou à redação de uma revista em que eu trabalhava e chorou e urrou e xingou ao receber a informação de que sua peça não estava entre as pautas do mês.

Tudo isso eu já esperava.

Mas nada, nada havia me preparado para o que aconteceu quando uma noite o telefone tocou em minha casa, minha casa mesmo, e uma voz grave pronunciou com a clareza e distinção dos locutores de outrora:

- Alô, boa noite.

- Sim?

- Cecilia Giannetti?

- ... sim.

- Cauby Peixoto.

Ele mesmo, a emissão clara e radiofônica não deixava margem a dúvidas. Não fingi a fleuma dos velhos jornalistas; um telefonema de Cauby ainda é um telefonema de Cauby.

Eu tinha ligado mais cedo, procurando o cantor. Queria umas aspas dele para uma matéria. Liguei três vezes, na verdade. Na primeira, ele havia acabado de "se recolher" - era a sesta pós-almoço. Na segunda vez, ele estava tomando banho, que eu ligasse dentro de uma hora. Liguei bem depois, mas aí ele estava numa reunião (às 21h). Quando eu já havia me conformado de mandar a matéria (um levantamento sobre moda "exagerada" para homens) sem o brilho de Cauby, eis que...

- Conceiçãããããããão...

Aquele arcaico 48 rotações do baterista da minha banda tocava no fundo da minha cabeça enquanto o cantor falava do outro lado da linha; eu era capaz de ouvir até os arranhões mínimos que tornavam único o exemplar do disco. Me fez lembrar também do Stanislaw Ponte-Preta e sua crônica sobre o marido pego em fragrante pela esposa numa traição; para escapar à sova da megera, o sujeito fazia-se de doido com uma encenação que consistia em pular numa perna só e gritar "CAUBY! CAUBY!"

Cauby! Às 22h30 a voz do homem estava absolutamente límpida.

- Eu cuido: não bebo, não fumo.

Eu devia ter cuidado também, e gravado certas conversas dos meus tempos de redação.

Escrito por Cecilia Giannetti às 15h16

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Leitura do dia

Enquanto eu vou ali, disfarçadamente, assistir à estreia da sexta temporada de Lost - os fãs da série que assistiram ontem ao episódio duplo garantem que é cabeludíssimo de referências a micro detalhes passados, entre outras coisas que não vou explanar agora pra não liberar spoiler - deixo vocês com um amigo que nunca deve faltar entre as suas leituras:

PAULO MENDES CAMPOS

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre. - "Acorrentados", de O amor acaba - crônicas líricas e existenciais (Civilização Brasileira).

Escrito por Cecilia Giannetti às 12h55

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Ok, este é o Gay Talese

 

Are we good now?

Escrito por Cecilia Giannetti às 22h22

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Pics, pics, pics

Não só um site de fotos raras de "celebridades", é um bookmark mais que necessário pra sua coleção (thanx Claudio Silvano!)

 

Reis: Tom Wolfe e Kurt Vonnegut

Yoko Ono, Andy Warhol e John lennon em uma daquelas poses que...

Marilyn Monroe e JFK, por uma fresta

Elizabeth Taylor e gato

Escrito por Cecilia Giannetti às 15h18

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Agenda secreta de uma aquariana pequena

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo aqui e abaixo o trechim de praxe:

Por trás das árvores no subúrbio, as luzes acesas de repente escurecem a vida. E, à menina que planeja na cabeça uma fantasia de Carnaval provocante, resta jogar conversa janela afora, sozinha, murmurando rente à dobra da cortina, espiando lá de cima do seu brocado a comédia da carne dos namorados que passeiam muito mal com o pobre do labrador amarrado na coleira.

Eles se beijam, e o cão aguarda pacientemente sua vez de urinar num toco de cimento ou árvore. A menina imagina, melhor que o beijo, o carinho que existe no ato simples de chorar encostada ao pelo do cachorro do vizinho. Que sebento e cheiroso esse cachorro (esse cheiro você jamais esquecerá), lambe o próprio couro onde não há pelos. O rapaz lhe parece ansioso ao engolir a boca da moça, mais ansioso que o labrador. O labrador foi educado e responde com sua resignação escrava.

A menina se cansa do romance e da impossibilidade de se aproximar do cão, escravo de um amor que não lhe deixa restos de afagos. Senta à cama com a agenda aberta. Há datas marcadas, provas terríveis pelas quais terá de passar por estudiosa ou inteligente, nunca um prodígio. Toma da caneta bic azul e descreve o que viu pela janela. Há carinho na composição escrita pela menina.

Tem a letra redonda e os joelhos ralados, as unhas roídas de preocupações infantis. A letra redonda explica: "Rumino uma coisa quieta, uma constatação sem surpresa. Das que nascem à toa, e à toa vão comendo pelas beiradas a cortininha puída que esconde um segredo, até que não exista mais cortina. E o segredo, sem cortina, é só um fato. Eu percebo que já o adivinhava atrás do pano, e sua nudez não me choca".

Encontro a agenda de minha filha aberta. É um convite traiçoeiro, cada página de caligrafia bem treinada, como a paciência do cão. Posso seguir pensando em minha filha como a criança cuja atenção principal será sempre dirigida a mim e a mais ninguém. Posso tê-la, possuí-la como ninguém jamais o fará.

Destruí-la entre meus braços, tornar a produzir leite com meus seios, ou um refrigerante viciante que verta dos meus seios, isso sim, talvez misturado à vodca... E tê-la para sempre acorrentada a mim.

Quero da minha filha tudo, toda ela, e esse amor não pode ser o que todas as mães sentem. As que abandonam bebês em bueiros, lixeiras ou rios. Eu quero toda a minha filha somente para mim.

Ou posso ignorar que ela pensa tais coisas e as põe no papel e que talvez um dia isso seja o que venha a fazer de sua vida. Observar e anotar. Espiã.

Escrito por Cecilia Giannetti às 13h59

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Leitura do Dia

 

Hoje a Leitura do Dia é, mais que o habitual, o carinho do dia. Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar, é um livro que cheiro e abraço. Deixo abaixo trechim, desejando um excelente começo de semana pra vocês:

"Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaro e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que essas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: "Que bela cidade, que belíssima cidade". E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos e é assim que os cronópios viajam. (...)"

"Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. (...)"

"Os famas, para conservar suas lembranças, tratam de embalsamá-las da seguinte forma: após fixada a lembrança com cabelos e sinais, embrulham-na da cabeça aos pés num lençol preto e a colocam contra a parede da sala, com um cartãozinho que diz: "Excursão a Quilmes", ou "Frank Sinatra". (...)"

"Os cronópios, em compensação, esses seres desordenados e frouxos, deixam as lembranças soltas pela casa entre gritos alegres, e andam no meio delas e quando passa alguma correndo, acariciam-na com suavidade e lhe dizem: "não vai se machucar" , e também "cuidado com os degraus". … por isso que as casas dos famas são arrumadas e silenciosas, enquanto nas dos cronópios há uma grande agitação e portas que batem. Os vizinhos quase sempre se queixam dos cronópios, enquanto os famas mexem a cabeça compreensivamente e vão ver se os cartãozinhos estão todos no lugar. (...)"

Escrito por Cecilia Giannetti às 14h17

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São Sebastião

 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 21h39

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RJ - Pracinha Zona Sul

Com exceção dos gringos e da população de rua, cujo estoque se renova mais rápido que o dos chamados moradores "propriamente ditos", pode-se afirmar com toda a certeza que o Rio de Janeiro - especialmente sua Zona Sul - é uma pracinha de microscópica cidade do interior. Ou cidadezinha cenográfica de novela das oito.

Quem não mora no Rio de Janeiro pode considerar a afirmativa um tanto exagerada, uma graça feita para encher jornal. Mas quem circula todos os dias nesta praça, desfilando suas roupas de missa pra lá e pra cá, sabe que as mesmas caras de sempre se encontram e reencontram "inesperadamente" a certa altura de cada volta, feito em trama do Manuel Carlos onde todos se cruzam, todos se topam. E o leitor precisa ser alertado a respeito das marotices do convívio carioca. Afinal, mais cedo ou mais tarde poderá dar suas voltinhas em nosso pequeno povoado.

Experimente trair no Rio de Janeiro. Pode até não dar barraco; só que, de qualquer maneira, a parte lesada ficará sabendo. Os casais de hoje em dia querem se mostrar bem analisados, suas atividades extra-curriculares compreendidas enquanto necessidades fisiológicas inevitáveis na espécie. Mas a questão aqui não é verificar se esse mito científico dos desencanados pode ser vencido pela fofoca. O negócio é que é muito fácil ser pego na pracinha: basta que uma das mesmas caras de sempre veja você em ação. O que também é moleza.

Digamos que você, pessoa comprometida, agarre-se por acaso a outro alguém (entidade losermânica muito empregada em versos do aspirante a Chico Buarque, barbudo e carioca da novíssima geração, Marcelo Camelo) durante alcoólico e ritmado ensaio de um entre as centenas de blocos carnavalescos existentes na cidade. Pode apostar que um ou vários dentre as seguintes categorias de potenciais fofoqueiros estarão no mesmo bloco, aptos a verificar a ficada: colega de trabalho e/ou colega de faculdade da parte lesada, vizinho, amigo comum do casal, membro da família da parte lesada, amigos da família da parte lesada, um invejoso ou invejosa que, como nos folhetins, tem grande interesse em ver a separação do casal.

A partir daí a coisa se espalha, através de testemunhos equivalentes ao muito provinciano "Vi os dois aos beijos no murinho dos fundos da igreja!".

Do pipoqueiro ao padre, todo o pequeno mundinho carioca sabe o que você fez no verão passado. E o que você faz neste também.

Escrito por Cecilia Giannetti às 11h20

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Quietude

Vazou na web One Life Stand, o novo álbum do Hot Chip - que chegará às lojas em fevereiro, quando aí pelo mundo os sobreviventes dos primeiros sinais de caos de 2010 já estiverem *can-Fa-dos* de dançar isso na pisxchta -, e desde já "Keep Quiet" é a faixa querida. Parece ter sido feita para um domingo distante de terremotos.

Você ouve "Keep quiet" aqui.

***

E por falar em quietudes, trechim da minha coluna da semana na Folha de S. Paulo, "Rápido, mas não muito":

ENTÃO, um dia, finalmente chegamos aqui. Você estava lá no seu canto, com uma rotina mais ou menos repetitiva, ou mesmo totalmente caótica -ainda que dentro de sua normatizada repetição- e então, de repente, BANG!, 2010. Dois Mil e Dez. Grandioso, redondo, insondável, sedutor. (...)

Afinal (...) nós já deveríamos ter uma vaga noção do que "seremos" para o século adiante. Supostamente. Como vamos ser vistos por "eles", nossos netos, bisnetos. Como seremos lembrados pelos jornalistas-fazedores-de-listas-de-melhores-coisas-do-século. Por mais que isso pareça apressado hoje, há uma coisa certeira nessa ânsia: somos -hoje- apressadinhos.

E o tempo é um implacável corredor.

Uma rolha de champanhe explodiu na direção da sua testa, e BANG!, 2010 - é basicamente isso que rolou há apenas 12 dias. E um mar de listas de melhores filmes, melhores discos, maiores tragédias e momentos mais "mais ou menos" de uma década foi publicado por aí, para desespero de quem tentou acompanhar a velocidade com que tudo ocorreu, foi produzido, consumido e compreendido (Foi mesmo compreendido?).

Há a possibilidade de que o tempo passe a fazer um jogging bem de leve, em vez de ganhar medalhas de ouro feito um nigeriano on dope? Nah. Já estamos em processo de aceleração irreversível há muitos decênios. Podemos tapear o tempo? Negociar, talvez. Allegro, ma non troppo.

Se ele vai de trem-bala, tomemos a calçada em calmas passadas, brincando com as sombras de amendoeiras e predinhos. Ou experimentamos saborear o jornal que pegamos no jornaleiro (pagando ao homem pelo maço de papel, de preferência) ou recebemos em casa, tomando café da manhã com a dose bem medida de indignação que um leitor de jornal se permite, antes de partir para o trabalho ou faculdade.

Levamos na bolsa um livro, que nos fará companhia por todo o trajeto do ônibus ou metrô (favor não ler caso esteja dirigindo, apesar de o trânsito em São Paulo muitas vezes oferecer ao motorista a oportunidade de finalizar capítulos inteiros enquanto espera a fila andar).

Olhemos agora, logo aqui à frente, um botequim tranquilo. Sente-se nele. Eu me sento contigo. Vamos ler cada entrelinha de cada fato noticiado, fatiado, e pensar sobre cada coisinha ocorrida; sacar de um bloco e cruzar ideias em cima do papel em branco, ideias sobre como chegamos até este noticiário que espicaçamos e digerimos. Já estamos em 2010, é preciso descobrir como chegamos até aqui!

Decisões de Ano Novo? Muita gente as tem, quem as mantém? Promessas que gostaríamos de cumprir.

Eu, por exemplo, a curto prazo, gostaria de (...) me animar com produções que podem conseguir entrar na lista de melhores DVDs da coleção (a serem substituídos, claro, por Blu-ray na década a seguir ou tão bem antes). Ler os livros que pretendia deixar pra depois da aposentadoria. Ir à praia e sugar proveito de cada momento sob o sol que derrete o planeta, antes que nos varra um tsunami de qualquer coisa política ou aquática terrível.

Todo o imenso mundo no mesmo barco furado. Ou no meio do oceano, sem salva-vidas. Conforme você preferir imaginar tal desatino.

Acenar para o tempo que corre sem trilhos quando ele passar por nós. Deixemos que o tempo nos olhe e veja somente borrões entre fachos de luz viajantes.

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 11h19

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An Education

 

Filme pelo qual eu salivava havia algumas semanas, graças ao arremesso generalizado de confete sobre ele da parte dos críticos gringos e a uma cena muito bem escolhida do longa, exibida no programa do David Letterman (GNT) durante uma entrevista com a nova toast of the town, ou melhor, the towns, as lá deles, não as nossas - não por enquanto: Carey Mulligan (Pride and Prejudice, 2005).

Assisti a An Education ontem. Nick Hornby foi o responsável por transformar as memórias de uma conhecida jornalista britânica, Lynn Barber, em um roteito com diálogos sedutores que se desenrola na Londres do começo dos anos 1960 - com algumas viagens-surpresa pelo caminho. O filme conta ainda com uma trilha sonora muito da gostosinha e as atuações aclamadas da protagonista, Mulligan, de Alfred Molina e Peter Sarsgaard.

Mas voltemos à Mulligan e àquela palavrinha que me demanda um bom copo de café forte para que eu continue a escrever este texto: H.Y.P.E.

Nada de (tão) malvado a respeito do hype em torno do filme, que aqui surgiu de forma natural a partir do entusiasmo de seus fãs. Incomoda-me, somente, a reverência distorcida do público a uma musa de todos os tempos, Audrey Hepburn, que fez com que a Mulligan desta fita tenha sido instantaneamente comparada a uma atriz inigualável e insubstituível, por conta de atributos superficiais.

Como assim?

O rosto infantil, que permite que Mulligan, aos 25 anos, interprete uma aluna CDF de 16, que é transformada em menina-mulher no espaço de algumas noitadas e muita champanhe; a magreza envolvida em figurino glorioso de época, de fazer babar qualquer moça pé-de-chinelo que de fato prefira chinelos à elegância; os cabelos puxados em coque alto.

Tudo isso me parece tão pobre diante de um talento realmente novo.

Me desaponta que precisemos todo o tempo buscar o aval de uma Hollywood que não existe mais para amar uma nova e brilhante atriz. E que recorramos à uma estrela atemporal e de dimensões descomunais, Hepburn, para fazê-lo. Como se o passado, e somente ele, pudesse dar cacife à Mulligan. A referência que não reverencia o novo.

O filme, em si, bom, vocês vão gostar dele mais do que eu, que ando verdadeiramente chata pra cinema. An Education tem todas as qualidades para ganhar sua atenção e seduzi-los irremediavelmente. Mulligan de fato é apaixonante. Mas não é Hepburn. Sua estreia no Brasil está prevista para 19 de fevereiro.

p.s.: Um exemplo de meu atual grau de tolerância a algumas produções cinematográficas contemporâneas: Avatar, de James Cameron, em determinados momentos deu-me ganas de lançar à tela um sapato. But that's just me. Dizem que em 3Dzão o Avatar funciona melhor (porém, tecnologia alguma é capaz de eliminar a breguice de certas partes do roteiro).

Aqui, o trailer oficial: http://www.youtube.com/watch?v=qn9IMe5jmf0
Aqui, mais cenas e comentários [em inglês]: http://www.rottentomatoes.com/m/an_education
Aqui, Lynn Barber diz "Eu sei que fiz uma coisa ruim", sobre ter exposto a mentalidade tacanha de seus pais, ainda vivos, numa autobiografia brilhante: http://www.telegraph.co.uk/culture/books/5507121/Lynn-Barber-I-know-Ive-done-a-bad-thing.html

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 06h16

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Dexter

Cheguei agora ao episódio 12 da 4a. Temporada.

A quem ainda não viu a série, ou parou de segui-la após a Terceira Temporada, que foi deveras caída, continua valendo o aviso: a Quarta foi muito boa, com John Lithgow: http://www.sidereel.com/Dexter/_season/4/_episode/12/_search

Mas há que se passar pela Terceira para entender como o ruivinho assassino serial chegou ao atual estado de "maluquez" e enrascadas.

Escrito por Cecilia Giannetti às 12h23

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Não é Mais Uma Lista de Melhores da Década

Como já devem ter deduzido, poucas listas de Melhores Coisas da Década me cansam menos que seduzem. Todos - por exemplo, do jornalista mais influente de cultura do New York Times até o blogueiro viciado em bandas e filmes indies - fazem as suas. Minha lista de supermercado já me supre a necessidade de fazer levantamentos de Melhores do Corredor de Hortifrutis. Tenho certeza de que jornalistas que vivem o dia a dia cultural nas redações, espicaçando press releases e passando de uma cabine de imprensa de lançamento de filme à outra já fazem mais do que suprir a necessidade de vocês acerca de tais listões.

Por outro lado, reconheço algo de relapso em não expor aqui meu díptico de Opiniões sobre a Década.

Mas em vez disso curvo-me à tendência gostosinha de me entregar às boas surpresas, e gostaria de estender esse prazer a vocês.

Se a internet nos ensinou alguma coisa em seu processo aceleradíssimo de produção, reprodução e disseminação de conhecimento (no qual cabem vertentes tão distintas quanto livros e discos e filmes inteiros para download, além de pornografia e muito mais) é que devemos criar nossos próprios filtros.

Ler as famosas listagens de ano ou de década, e debater com autores e outros leitores das mesmas os itens que delas constam, sim. Maravilha. Mas também acordar para a voz de quem manda no seu micro - que deve, não se engane, ser você mesmo -, nas mil abas em janelinhas de browser que você abrirá e, talvez, lerá; no seu roteiro cultural. O seu filtro criado com o melhor (na sua concepção, formada dentro do debate online e offline, botequístico) do filtro dos outros que lhe satisfizer e desafiar.

Por tudo isso o número 1 e único de minha lista de análises culturais dos anos 00 é: o pitaco acima - infelizmente - não chove no molhado, num país onde inclusão digital ainda significa, para muita gente, pagar R$ 2,00 por meia hora de visita ao Orkut em lan houses.

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 03h56

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Fim de anos no hospital

Minha coluna na Folha deste semana:

AOS 12 ANOS, aprendeu a chorar como a tia. Arte comedida. Sentadas no sofá diante da mãe e de uma desconhecida. A mãe ressonando sem apêndice no estupor da anestesia, larga e nua debaixo do lençol que deve ter sido verde: agora ralo na cor e na textura, protegia a carne dos mosquitos que rondavam a enfermaria. A estranha deitada no outro leito era massa disforme e inerte, pele mais fina que os panos velhos do hospital. O peito não se abalava pela respiração, o oxigênio se impunha, tragado a contragosto. A boca aberta era um buraco escuro contornado por fiapos de lábios sem cor. Não tinha dentes. Dentro da caverna destacava-se a língua solitária, que não viram mexer-se vez nenhuma enquanto estiveram naquele quarto. A parede azul detrás dos ferros da cama movia-se mais que a velha, as sombras de uma mangueira lembravam que lá fora tinha coisa.

Lá fora tinha máquina grande de Coca-Cola na saleta, recepcionista de calça justa falando com alguém pelo computador; de vez em quando ela dava um risinho e táqui-ti-táquiti pra teclar de novo furiosamente com os olhos cravados na tela; a menina viu enquanto aguardavam a internação. Lá fora, tempo feio, dois garotos que tinha visto soltando pipa. A tia se lembrava cada vez menos lá de fora, concentrava-se no seu futuro que via num leito.
A enfermeira veio com um lençol novo e fraldas.

-Fez, é? -A velha, nada.

-Vamos, dona Maria. -Dona Maria não se movia.

A enfermeira não tinha ancas, magreza feia sob uniforme branco. Suspendeu sozinha as pernas da paciente, que não abriu os olhos. A menina via, entre o balé de ossos da enfermeira, as pelancas das pernas suspensas. As sardas nas pernas da velha eram maiores que as sardas na pele da menina. Diogo beijou suas sardas aos 12 anos, dizendo que eram bonitas. A sombra das árvores na parede azul atrás da velha lembravam que lá fora havia colégio e Diogo pra beijar a menina.

Diogo, com pelos nas pernas, já beija de língua, dedilha a menina. Ela sempre alisa o cabelo dele; é preto e crespo e faz cócegas na palma da mão. Não diz nada a ele depois de tocá-lo assim, mãos sobre o cabelo igual ao de cadete. Ele não tem patente, nem ela sabe o que isso quer dizer. Lá fora há dedos e línguas. Assim que a enfermeira desatou os adesivos da fralda, explodiu o cheiro agressivo nos quatro cantos do quarto. A enfermeira arranjou na garganta uma voz infantil pra ralhar de brincadeira com a fralda, como se ralhasse com a velha-criança, já que a paciente mesmo não escutava.

-Dona Maria, dona Maria... Lá do quarto ainda se ouvia. Dona Maria, dona Maria. Que, de fralda limpa, respondia nada. Quanto dona Maria não dava por uma infância que não fosse deitada?

A tia sentada no sofá encarava a desconhecida no leito. Nem olhava pra cunhada. O rosto vermelho da tia, onde o choro não chegava a molhar o queixo, era cortado por gestos rápidos das costas das mãos antes de desenharem afluentes pela pele seca. As sardas na pele da tia já eram quase tão grandes quanto as manchas da desconhecida.

-Hein, tia? Que foi?

-Alergia.

Escrito por Cecilia Giannetti às 18h17

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Desce o pano


A vida de quem escreve seria muito sem graça sem atores desinibidos.

***

"The actors by their presence always convince me, to my horror, that most of what I've written about them until now is false. It is false because I write about them with steadfast love (even now, while I write it down, this, too, becomes false) but varying ability, and this varying ability does not hit off the real actors loudly and correctly but loses itself dully in this love that will never be satisfied with the ability and therefore thinks it is protecting the actors by preventing this ability from exercising itself.

It is (to describe it figuratively) as if an author were to make a slip of the pen, and as if this clerical error became conscious of being such. Perhaps this was no error but in a far higher sense was an essential part of the whole exposition. It is, then, as if this clerical error were to revolt against the author, out of hatred for Iron, were to forbid him to correct it, and were to say, 'No, I will not be erased, I will stand as a witness against thee, that thou art a very poor writer.'"
- J.D. Salinger.

Escrito por Cecilia Giannetti às 23h00

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Blog Apocalipso A escritora carioca Cecilia Giannetti é colunista da Folha, em que escreve quinzenalmente no caderno Cotidiano.

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