Um filme caseiro pra lembrar cinema em falta
Em agosto deste 2009, quando Anselmo Duarte foi internado no Incor, Inácio Araujo aproveitou pra levantar esta bola no Cinema de Boca em Boca: "Cadê os filmes do cara?".
E mais, "Seria legal rever os filmes de Anselmo diretor, não só os que passam mais, como 'Absolutamente Certo', essa bela comédia, e, claro, 'O Pagador de Promessas', mas também 'Vereda da Salvação' (o melhor filme dele, Carlão [Reichenbach] sempre achou), 'Um Certo Capitão Rodrigo', que é mais fraco, e até 'O Crime do Zé Bigorna', que, pelo amor de Deus, é muito ruim. O Carlos Roberto Souza, curador do acervo da Cinemateca, diz que quase todo o Anselmo está preservado. A exceção é 'Quelé do Pajeú', cujo negativo parece que foi para a Espanha (era uma co-produção) e a Cinemateca está atrás."
Vale a pena gritar de novo.
p.s.: O Thiago Dottori está fazendo um flood do bem hoje no Twitter, contando as famosas histórias de Anselmo => http://twitter.com/thiagodottori.
[Vídeo: festa de aniversário de Anselmo em abril, quando fez 89 anos. Inácio: "Vocês dirão, caramba, nem o aniversário do Anselmo os caras sabem filmar mais. É verdade. Essa pan na escuridão é de doer. Mas, aqui entre nós, é melhor que esse didatismo da televisão. Já estava na hora de perceber que esse didatismo não ensina bulhufas, não?").
Escrito por Cecilia Giannetti às 12h38
Cidade-aberração
Comadre B.B., Condessa Buffet das Mídias Virgens, me contou que o romance Hotel Novo Mundo, da Ivana Arruda Leite, é O BICHO absoluto. Carioca como eu, B.B. - de melhor estirpe que esta insulana da Ilha do Governador, a Bruna Beber é nascida em Caxias, crescida em São João de Meriti e muito aparecida em São Paulo -, recomendou-me o livro através de um trecho irresistível pra quem conhece as pragas e as paisagens do balneário perdido:
Andar no Rio de Janeiro pela manhã, com essa luz, com esse sol, vendo o mar e essa paisagem deslumbrante chega a me dar raiva. Esta cidade é uma aberração. Não há como fazer jus a este cenário. Ninguém aguenta a responsabilidade de viver num lugar tão lindo. Em São Paulo você pode ser infeliz à vontade. A sua miséria se junta à miséria da cidade e vira tudo uma coisa só. Vive-se com mais naturalidade. São Paulo deixa você ser quem você é. O Rio é uma cidade para semideuses. Tô fora.
É leitura pra já, anotaram?
Escrito por Cecilia Giannetti às 20h17
Enquanto "O Seminarista" não vem
Assista ao teaser do novo romance de Rubem Fonseca.
Escrito por Cecilia Giannetti às 21h29
BRUTO NÃO AMA
A 14ª Parada Gay carioca foi sucesso mesmo com uma chuvarada encharcando as cerca de 200 mil pessoas que animaram o evento no último fim de semana. Para provar que a sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) significa mesmo alguma coisa nesta cidade ensolarada e algo esburacada, o Rio de Janeiro acaba de ganhar o título de melhor destino gay do mundo. O anúncio foi feito na 10.ª Conferência Internacional de Turismo LGBT após dois meses de votação no site TripOutGayTravel e através do canal Logo, da MTV norte-americana, especialmente voltado para o segmento LGBT. Eleito por mais de 100 mil entusiastas de nossas maravilhas, o Rio deixou Barcelona, Buenos Aires, Londres, Montreal e Sidney comendo poeira.
Mas o Rio é conhecido por seus paradoxos, a beleza e o caos, bla bla bla, e neste caso, não poderia ser diferente. Foi imediatamente após este fimde colorido (no bom sentido, com um "L" só), que bateu nos jornais a denúncia de agressão sofrida por um casal de frequentadores da boate Le Boy, em Copacabana, que apanharam de seguranças da casa ao deixar o ambiente às 5h da manhã, no dia 13 de setembro. O primeiro segurança a descer o braço no consultor de vendas de 29 anos e no professor, de 26, chama-se apropriadamente Jr. Bruto. Bruto teve a ajuda de outro segurança da casa pra fazer o estrago: fraturas, escoriações pelos corpos de ambos, 11 pontos na cabeça de um, outro 50 dias sem poder trabalhar.
A hipótese que levantei pra tentar dar algum sentido a esse absurdo todo, ainda que não tenha passado de uma criação da minha imaginação de novela mexicana, é que Bruto seria namorado de um dos dois rapazes, que viu aos beijos na pista da boate com outro; e, cego kill bill style, vendo tudo vremeio pela frente, por ciúmes espancou um e outro e pimba e pá, "Meu nome é Bruto e eu também amo!"
Mas não foi nada disso, é claro. Na verdade, Bruto odeia gays, apesar de trabalhar em uma das mais conhecidas casas noturnas gay do Rio. E ele e seu sidekick fizeram questão de dizê-lo ao casal enquanto davam a surra: "Veado tem é que apanhar" - repetiam.
Contradição é pouco
O caso parece até coisa do Farmeganistão...
Mas não é. Veio de onde menos se espera. Ou de onde menos costumava-se esperar.
O Rio acaba de levar este título disputadíssimo de melhor destino gay, e o casal de rapazes acaba de levar uma surra por serem gays. Taí uma boa deixa para firmar na realidade o slogan/causa da Parada Gay do ano passado, NÃO HOMOFOBIA.
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O que significa tudo isso, senão o próprio apocalipso?
Escrito por Cecilia Giannetti às 21h51
O vício e a salvação
Desde a primeira vez em que virei uma noite entregue ao vício, em 2000, eu já sabia de uma coisa: era mais forte que eu, era uma necessidade insaciável e era gostoso demais. Eu nunca ia me livrar disso. Nunca.
Na época eu era estudante, usava saias do tamanho de um cinto e estagiava numa empresa em que toda a equipe estava na mesma onda, sabe qualé?... a gente chegava no trabalho no horário certo, mas naquele estado: denunciavam nosso desvio as olheiras profundas, o cansaço e o resquício de excitação na forma de um meio sorriso nos lábios por termos ficado na atividade na madruga.
Na época um jornalista chegou a publicar uma coluna censurando a depravação a que toda uma geração de jovens então se entregava sem o menor pudor:
"Isso é 'evasão de privacidade'", bradou.
Ora, nosso vício era passar a noite escrevendo em blogs e trocando ideia através dos hoje jurássicos ICQ e mIRC. Mas o jornalista estava falando de um barato diferente do meu, os blogs mais "pessoais". A maior parte desse tipo de gente, de fato, vivia e vive pra divulgar via web detalhes de sua vida íntima. E até hoje, passados quase dez anos do boom dos blogs ao estilo "Querido Diário" (que deram ao mundo literário Bruna Surfistinha, para ficarmos num exemplo mais conhecido) têm seus leitores. Os voyeurs de post são tão viciados na droga quanto quem a (pr)escreve.
O jornalista tinha certa razão ao vociferar contra os exibicionistas? Bem, cada um sabe do que gosta.
Passei por muitos e diferentes endereços na internet blogando longe desse gênero; nunca postei sobre um fim de namoro, intrigas e traições. Prefiro falar de música, cinema, festas, livros, seriados, novelas e rangos especiais, como o podrão vendido em frente à extinta casa de shows Ballroom, no bairro carioca do Humaitá. (Fecundo período para posts inspirados: teve até aquela noite inesquecível quando um mutcho loco Evan Dando saiu do Ballroom cambaleando depois de cantar todos os hits do Lemonheads e amanheceu na praça Serzedelo Correa, em Copacabana, tocando violão pros mendigos.)
Eu postava também minhas invenções. Meus primeiros contos e crônicas foram escritos em papel, mas meus primeiros contos e crônicas lidos por algumas centenas de pessoas foram os que postei na internet. Às vezes eram os mesmos dos cadernos, que eu digitava e passava ao blog - não eram "literatura de internet", mas textos que a rede ajudava a divulgar. Quando entendi o poder disso, não larguei mais o osso. Num país conhecido internacionalmente por não ler, saquei que era por aí que eu devia começar se não quisesse minha imaginação pra sempre guardada numa gaveta. A internet foi o vício e a salvação.
Na vida como na web
Uma coisa que talvez faça sentido confessar aqui sobre a minha vida pessoal é que eu me mudo muito. Comecei morando na Ilha do Governador, cujo cotidiano pode ser definido sem exageros como uma mistura de Barrados no Baile, Twin Peaks e Lost.
Em seguida, fui parar em Copacabana, que não ouso definir aqui em apenas uma frase. Depois, o bairro do Flamengo, nome do meu time de coração. Aí, Catete, em frente ao Museu/Palácio da República onde o presidente Getúlio Vargas certa noite, you know... bang-bang, matou-se.
Retornei a Copacabana. Arrumei minha trouxa e morei em Nova York. Voltei pro Catete. Fui pra Berlim e achei que lá faz um frio do cacete. Copacabana pela terceira vez. Laranjeiras. Flamengo again. São Paulo (Vila Mariana - dois apartamentos diferentes - e Praça Roosevelt). Back in Rio. E por enquanto é isso. Por enquanto.
Na internet meu blog já teve pelo menos cinco endereços diferentes - que eu me lembre. Chamou-se Consultório, Go-Gonzo Girl, Entreparênteses, Escrevescreve. Este aqui chega à casa dos Blogs da Folha batizado de "Apocalipso".
Achei o nome apropriado ao caos nosso de cada dia. Vivemos como se o mundo de fato fosse terminar em 2012, de acordo com recentes produções hollywoodianas e profetas meio marotos: rebolamos ao ritmo de tsunamis, crises econômicas e éticas, guerras étnicas, religiosas, civis (alô meu Rio de Janeiro!), um mundo em que cirurgias plásticas são gênero de primeira necessidade e faltam gaze e leitos nos hospitais. Aqui deixo de fora ainda muitas características deste admirável mundo tosco, pra não cansar demais a beleza de vocês. E sempre que o ritmo exigir, dançaremos cá no blog conforme a música, comentando do desempenho do Colisor de Hádrons à novela - a variedade de assuntos, espero, formando uma colorida estamparia na saia da moça que roda, roda, roda e anuncia, aqui, o Apocalipso.
Para CONEXÃO UMBILICAL, sigam-me no Twitter.
Escrito por Cecilia Giannetti às 20h02

