A (apocalipso)
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Telegrama do passado

 

Um não sabia, o outro nunca viu igual e ao presidente coube enxergar apenas o "joguinho político pequeno". Precisa dizer que falo da tragédia da chuva no Rio de Janeiro? Ora, de entrada sabemos do que se trata. Ninguém se responsabiliza: quem tira o corpo fora joga toda a culpa sobre a natureza "alterada" e as condições geográficas do Rio de Janeiro. Não caia nessa: há, sim, novas condições acarretadas por um problema climático que é mundial, e há, sim, no Rio, inegável vulnerabilidade às chuvas, por conta da geografia do estado. Por esses aspectos naturais já serem amplamente conhecidos há décadas é que deveríamos estar melhor prevenidos, protegidos. Quem deveria proteger de sua necessidade a população? Protegê-la da necessidade de construir e de morar "aonde dá"? Quem?

"Infelizmente, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social". Em 1915 o óbvio já era denunciado pelo escritor e jornalista carioca Lima Barreto. No Correio da Noite de 19 de janeiro de 1915, Lima criticou a fixação do prefeito Pereira Passos, que governou a cidade entre 1902 e 1906, pelo embelezamento de seus "passeios" em detrimento de medidas para controlar o caos urbano - caos que não é privilégio das cidades pós-modernas. As chuvaradas de verão já destruíam casas e alagavam ruas em 1915. Nós, "do futuro", somos hoje ainda aqueles mesmos: vivendo de fachadas, de obras paliativas e de enganos.

Cada época com seus dramas? Não: é cumulativo, quando há desgoverno e irresponsabilidade.

A crônica "As enchentes", de Lima Barreto:


     As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.

     Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

     De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

     Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

     O Rio de Janeiro, da Avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

     Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

     Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

     O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

     Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

     Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.

Correio da Noite, Rio, 19-1-1915. (Toda Crônica, de Lima Barreto, Editora Agir)

 

***

 

Soa familiar?

 

***

 

Ressaca

 

Em Copacabana, nesta sexta, 9, amanheceu interditado o trecho da Avenida Atlântica que vai da Miguel Lemos até o Leme. A areia e o mar tomaram o calçadão e avançaram até a pista...

...quebrando pedaços da calçada da ciclovia

 

...invadindo quiosques

 

...impedindo o trânsito

 

Mudando a cidade e nosso olhar sobre ela, sobre nós e, tomara, despertando uma vigilância maior sobre quem elegemos para organizá-la

Escrito por Cecilia Giannetti às 10h26

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Bróder, dá aquela mão?

Acreditem: eu sei que hoje em dia ninguém tem tempo pra nada. E que muitos mal se permitem um desviozinho de rota entre casa e trabalho pra fazer compras e encher a geladeira, exceto quando sobra lá dentro apenas aquele iogurte vencido, meia garrafa de refrigerante sem gás e um ovo solitário. Porém, uma hora você terá que fazer compras, certo? 

Então, quando você for fazer compras agora, acrescente no carrinho um sacão de arroz, outro de feijão, quem sabe duas latas de leite em pó. Não é nada, não é nada, mas se cada um de vocês que eu "conheço" online fizer isso - tantos de vocês, cariocas e moradores do Rio, leitores que sempre trocam ideia comigo aqui ou via Twitter - vai ser muito: pegue esses alimentos não-perecíveis (e roupas, também; quem não tem um armário entulhado?) e leve até um posto de arrecadação de donativos para os desabrigados dessa #chuvarj, que já passam de 2 mil. 

Dá pra fazer. Um exemplo: se você está na Zona Sul do Rio, de carro ou metrô (de metrô, você desce na São Clemente, anda um pouquinho e tá lá), leve os donativos até a Rua Bambina, 37; é a Guarda Municipal. Em frente tem até um supermercado pra facilitar as coisas. Sério, não tem como errar. 

E há postos em vários pontos da capital carioca. Quando já der pra sair (de carro, metrô, ônibus) por aí sem nenhuma aporrinhação nem risco, vai lá:

- Centro: no Centro Administrativo São Sebastião (sede da Prefeitura - Rua Afonso Cavalcanti, 455, Cidade Nova)
- São Cristóvão: na sede da Guarda (Avenida Pedro II, nº 111)
- Botafogo: na base operacional da GM-Rio (Rua Bambina, nº 37)
- Barra da Tijuca: na 4ª Inspetoria (Avenida Ayrton Senna, nº 2001)
- Madureira: na 6a Inspetoria (Rua Armando Cruz, s/nº)
- Praça Seca: na 7ª Inspetoria (Praça Barão da Taquara, nº 9)
- Lagoa: 2ª Inspetoria (Rua Professor Abelardo Lobo s/nº - embaixo do viaduto Saint Hilaire, saída do Túnel Rebouças)
- Bangu: na 5ª Inspetoria (Rua Biarritz, s/n)
- Tijuca: na 8ª Inspetoria (Rua Conde de Bonfim, nº 267)
- Campo Grande: na 13ª Inspetoria (Rua Minas de Prata, nº 200)

Não adianta só reclamar, faça alguma coisa também ;)

Escrito por Cecilia Giannetti às 14h31

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Letras & Depressões

Fui ver a rua depois de muitas semanas dentro da máquina do tempo do trabalho. É incrível, eu não acreditaria se me contassem; mas sou testemunha ocular: a cidade não pára, mesmo quando não estamos olhando pra ela. Aliás, principalmente se não a olhamos, é aí que ela mais se mexe.

A Livraria Letras & Expressões e seu Café Ubaldo, que julguei que ficariam ali em Ipanema para sempre, estão mesmo fechando as portas. Uma coisa é ler sobre isso no jornal; outra, bem outra, é passar pela porta e entrar, automaticamente, atraído pela ideia de um sem fim de leituras que se podia fazer lá tomando um café, muitos cafés no segundo piso - ideia, lembrança, que nada disso se pode mais fazer lá. Dei de cara com umas prateleiras acanhadas, quase vazias, o acesso ao Café proibido por uma corrente. Não há mais o Café, nem muitos livros lá, nem sinal da variedade de jornais e das revistas importadas que o freguês podia levar para uma mesa e folhear.

Noutros tempos, noutros feriados, em que o Rio de Janeiro ficou vazio, também andei quadras e quadras antes de me esconder das ruas desertas no Café da Letras de Ipanema. Ali dentro a movimentação era a mesma, independente da data, do dia, até da hora: de madrugada também tinha gente conversando, lendo, escrevendo, tomando alguma coisa. Tinha rostos conhecidos, às vezes entre os frequentadores, sempre o do garçom ou da garçonete. A gente - ora, "a gente"... e, de repente, nem sei mais por onde andam os que frequentavam comigo suas mesas e prateleiras - chamava ali de Letras & Depressões, corrompendo o nome original.

Topei com o lugar daquele jeito, mais fechado que aberto, e dei meia volta. Liguei logo pra Letras do Leblon pra assuntar. (Não é a mesma coisa, para quem cria o hábito de frequentar um lugar, a filial nunca é). O funcionário disse pelo telefone que a de Ipanema está mesmo fechando; a do Leblon, "ainda não".

Escrito por Cecilia Giannetti às 16h25

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Blog Apocalipso A escritora carioca Cecilia Giannetti é colunista da Folha, em que escreve quinzenalmente no caderno Cotidiano.

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