Aqui vai um adendo à minha coluna da semana na Folha de S. Paulo.
400 contra 1 estreia nos cinemas no dia 6 de agosto, e, apenas com a divulgação do cartaz e do trailer do filme na última semana, já divide opiniões: pesquisa realizada por um jornal carioca chegou a registrar 44,89% de votos contra a exibição do longa. Comentários em blogs e sites de notícias também não deixam barato.
"Se teve muita gente querendo ser policial porque viu o filme do BOPE [Tropa de Elite], agora vai ter muita gente querendo ser bandido porque viu o filme do ComandoVermelho," escreveu Alexandre de Souza.
No DiáriodeumPM.net, Alexandre, policial militar, 25 anos, dá voz ao desconforto que causa o tema: "Vão romantizar o bandido? Mas é claro que vão! (...) Filme é filme. Filme é obra de arte, e deve ser encarado como tal."
Abaixo, três trechos que selecionei de 400 contra 1, livro autobiográfico de William da Silva Lima em que se baseia o roteiro de Victor Navas [Cazuza - O tempo não pára] e o filme de Caco de Souza.
No primeiro momento, William conta como começou a roubar. Depois, fala de como presos comuns teriam tido seu primeiro contato com o ideário dos presos políticos. Em terceiro, relata como voltou ao crime depois de perder um emprego em uma gráfica/editora.
"Ando atento pelas ruas, olhando tudo. Não quero, nem posso, voltar, e o risco que corro é apenas necessário para sobreviver. Ando rápido, mas não estou indiferente. Vejo o menino que dorme seu sono pesado, fraqueza, sob a marquise de um belo prédio, coberto de jornais e de roupas rotas, molhado pelos pingos da chuva que cai. Que vida lhe devam, irmão!
Que posso fazer? Acordá-lo? Conversar com ele? Dar-lhe trocados? Incentivá-lo a não se entregar, resistir, descobrir seu rumo próprio? Quando dou por mim, já segui em frente: o fugitivo não pode parar, nem envolver-se em situações de que não conhece o final. Mas continuo vendo e, principalmente, pensando. Vejo o senhor que passeia com seu cão - forte, bonito, bem nutrido, protegido da chuva - e contorna, sem lançar um olhar, o minúsculo corpo retorcido pela ao do frio. Como o operário da música de Chico Buarque, o menino apenas atrapalha o trânsito...
Sigo pensando como é difícil começar a contar nossa própria vida. Brás Cubas não sabia se iniciava suas memórias pela cena de seu nascimento ou a de sua morte. A mim não são dadas tais opções: personagem real, não morri e tampouco me recordo de como nasci. Minha primeira lembrança, ironicamente, já envolve polícia e justiça.
Fui gerado por um daqueles amores fadados ao erro: paraibana do interior, filha de índia e de camponês, ainda adolescente minha mãe fora mandada morar em recife, na casa da famlia de meu futuro pai. primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho, ganhei o nome de William em homenagem aos amigos americanos, que então combatiam na segunda guerra mundial.
Durou pouco o casamento de meus pais. Separados, passei a ver minha mãe em visitas, por decisão da justiça. Num belo domingo, levou-me para tomar sorvete fugiu comigo para a casa de seu pai, cortador de cana numa usina próxima à cidade de Escada. Eis minha mais forte lembrança de infância: meu pai, um tio, dois policiais fardados e um homem estranho - creio hoje, oficial de justiça - apareceram por lá, uns seis meses depois, e me levaram de volta para a casa dos avós paternos. Não devo ser amargo. Com meu avô aprendi a andar com meus próprios pés pela cidade.
De minha avó recebi atenção e carinho. Gostava deles, mas estava com a cabeça confusa e o coração saudoso.
Meu pai foi tentar a sorte em São Paulo e se casou com uma moça que conheceu na viagem. Meu avô morreu em seguida, deixando um vazio imenso e o pretexto necessário para que meu pai solicitasse, por carta, que eu fosse ter com ele. Viajamos - eu, minha avó e uma irmã de criação. Ambas ficaram no Rio, em casa de outra tia, enquanto eu seguia em frente.foi dura essa nova separação: sentia-me protegido na companhia da avó e deslumbravam-me as luzes do Rio, vistas pela primeira vez na noite em que desembarcamos no cais. Continuei a viagem a contragosto, pressentindo o engano. Tinha razão em meu sentimento de criança: em São Paulo, seguiram-se confrontos com a mulher de meu pai; perda de um ano de estudos e, finalmente, um tumultuado retorno ao Rio. Pilares foi o bairro carioca onde primeiro morei. Avenida Suburbana, Abolição, Méier, jogo de bola em Inhaúma - enfim, vida nova, logo consolidada pelo ingresso no instituto (...) onde iniciei o segundo ano primário. Durou pouco. Em fins do mesmo ano, meu pai me reclamou de volta, para nova tentativa. minha av tinha certeza de que não daria certo, mas nada pôde fazer. O fracasso não demorou, e a partir dele fiquei sem um porto seguro: pai, mãe e tias tinham, cada qual, suas vidas, seus problemas, suas limitações. Concluí o primário, mas, sem vaga em escola pública, não pude prosseguir os estudos. Com 12 anos, era preciso começar a ganhar meu próprio sustento, para não depender de ninguém.
Meu primeiro emprego foi num laboratrio de prtese, onde comecei fazendo entregas e pequenos serviços. Aos poucos me inteirei do ofício e, fazendo as coisas com gosto, virei ajudante. Compreendia então que cada um cuidava da própria vida e já não depositava expectativas em grande ajuda do pai, motorista de ônibus sempre às voltas com dinheiro de menos. Nunca tivemos uma amizade de fato, e prova disso são os 25 anos que não o vejo. Tratei de ganhar meu sustento, pagar minhas próprias despesas, embora fosse menor.
O centro de São Paulo me fascinava. Muitas vezes dormi na Praça da Sé, assistindo então, em cada manhã, como acorda a grande cidade, como se tensiona gradativamente, como cai esgotada depois que o sol se vai, como renasce na noite. Aos 15 anos já desejava trabalhar por conta própria, mas me faltava o capital inicial. Tive então, pela primeira vez, a ideia de que poderia conseguir dinheiro roubando. Empregado em um escritório de proprietários de imóveis, observei a rotina e arquitetei um plano minucioso, que envolvia dois cmplices, para roubar recibos de pagamentosde aluguis e fazer em seguida as cobranas na rua - essa era a rotina -, antes que percebessem o desfalque. Saí do emprego e detonei o plano, que obteve pleno êxito, rendendo, para cada um, a fabulosa quantia de vinte mil cruzeiros, dos velhos. pude ento, finalmente, comer num restaurante cuja vitrine de frangos sempre me fascinara. Depois, comprei uma bola de futebol e um par de joelheiras para o time em que jogava, escondi o que restou e iniciei meu prprio negcio, revendendo, nas feiras, bibelôs revestidos de pelúcia. Bons tempos, cheios de iluso de independência. Independência absoluta: forte desejo, que talvez me tenha reduzido, pela maior parte da vida, condição de prisioneiro."
(...)
"Em 1964 começaram a chegar os primeiros presos políticos atingidos pelo golpe militar. De início, eram alguns militantes sindicais, mas o contingente logo engrossou com a chegada dos participantes da rebelião militar de Brasília, conhecida como Revolta dos Sargentos, movimento deflagrado antes do golpe para protestar contra a inelegibilidade dos sargentos para cargos eletivos. A eles, se juntaram depois os integrantes da associação dos marinheiros, liderada em 1964 pelo Cabo Anselmo, hoje desmascarado como agente provocador. Presos comuns têm, no mundo inteiro, certa tradição de adesão a movimentos revolucionários. Aqui no Brasil, por exemplo, a massa carcerária extraiu muitas lições do contato havido na década de 1930 com os membros da Aliança Nacional Libertadora encarcerados na Ilha Grande. Quando os presos políticos se beneficiaram da anistia que marcou o fim do estado novo, deixaram nas cadeias presos comuns politizados, questionadores das causas da delinquência e conhecedores dos ideais do socialismo. Essas pessoas, por sua vez, de alguma forma permaneceram estudando e passando suas informações adiante."
(...)
"Fui solto, em 1965, em livramento condicional. Na cabeça, muito idealismo e poesia; na prática, a necessidade de sobreviver sozinho, sendo um marginal. Saí decidido a no procurar a família. Levava uma carta de apresentação de um preso político a uma gráfica e editora onde havia gente de esquerda. Consegui trabalho com eles, mas não me senti bem. Fora contratado por favor, a empresa estava beira da falência. A expectativa de desenvolver meu lado intelectual e político frustrou-se. Morando num quarto de penso na rua Francisco Muratori, na Lapa, acumulei decepções, transformadas em desespero quando a gráfica efetivamente fechou. Para sobreviver, resolvi assaltar, voltando a trilhar o caminho que me levaria de novo - reincidente - prisão, com mais seis anos pela frente. Novamente, Bangu. Rebelei-me de vez. Dizia não a qualquer preço, e essa característica - a que se denomina "periculosidade" - o sistema carcerário não perdoa."
***
Como isso virou a própria história de uma das facções criminosas que mais exerceu influência no Rio de Janeiro na década de 1990... será que o filme dá conta?
Não é carnaval nem nada (bem longe disso... dá uma olhada no jornal: tá mais pra halloween), mas vale o registro: na foto acima, retratado em painel de azulejos com 30m x 2,20m, do arquiteto Urbano Iglesias, a homenagem à Banda de Ipanema, declarada, em 2004, patrimônio cultural da cidade. Fica na estação de metrô da Praça General Osório e seu destaque, ao menos pra mim, são os dizeres que a Banda ostentava em estandarte e que, apesar de sugerirem coisa complexa e imponente, nada significam: "Yolhesman Crisbeles".
Foi Jaguar quem esclareceu de onde veio essa coisa estapafúrdia, adotada como lema, no simpático livrinho Ipanema (coleção Cantos do Rio, editada pela Relume Dumará, e leitura obrigatória pro carioca e pro turista):
"Frase cabalística que um maluco beleza escreveu numa tabuleta com a qual perambulava pela Central do Brasil. (...) O que nos deu muita aporrinhação; agentes da inteligência (risos) do exército achavam que eram mensagens subversivas em código."
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