A (apocalipso)
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Tonio Kröger não vai ao baile

Pra quê? Dar de cara com a Ingeborg e o Hans rebolando os ensinamentos de quadrilha do mestre Knaak? Nem irá à praia, embora a meteorologia anunciada pelo widget do iMac garanta que hoje dá sol. E ficaria uma arara se acaso saísse e testemunhasse, neste sábado, um flashmob no bosque, com guerra de travesseiros ou pessoas vestindo apenas sapatos, meias e roupas de baixo; ou o George Clooney banhando-se no lago próximo à árvore onde Tonio se recosta com um livro sobre os joelhos. 

Trabalhava como quem trabalha para viver, mas como alguém que não deseja outra coisa a não ser trabalhar, pois que não se dá nenhum valor como pessoa e deseja ser considerado apenas como criador, passando de resto despercebido como uma sombra parda, como um ator sem maquiagem, que não tem nada enquanto não tem um papel a representar. Trabalhava em silêncio, trancafiado, invisível, cheio de menosprezo para com aqueles pequenos literatos para quem o talento era apenas um adereço social e que, pobres ou ricos, se pavoneavam selvagens e esfarrapados, ou ostentando gravatas exclusivas, convencidos de que levaram uma vida altamente feliz, digna e artística, ignorando que boas obras só surgem sob a pressão de uma vida ruim, que quem vive não trabalha, e que é preciso estar morto para ser realmente um criador. - Tonio Kröger, Thomas Mann.

 

 

 

Deixa quieto, Tonio. 

 

Escrito por Cecilia Giannetti às 07h55

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A medida certa

 
 

A medida certa

Trecho da coluna da semana na Folha de S. Paulo:

 

Se da habilidade de dar cabo de um assunto em tempo favorável eu mesma um dia tirei pouquíssimo ou nenhum proveito, disso não me orgulho. Hoje procuro não subestimar as oportunidades de bem-estar que essa perícia proporciona, e dela faço propaganda. (...)

(...) lembrei da utilidade do conceito graças a uma amiga morena, de cabelos dourados farmaceuticamente (caso raro em que a química não convida à vulgaridade, mas ajuda a natureza), recém-liberta de uma relação estável. Chegasse o homem de bom ou mau humor, no meio da noite ou só na semana seguinte -ela estava. Embora, às vezes, o paradeiro dele fosse desconhecido -ela sempre estava. A isso eles chamavam estabilidade, não sem certa razão.

Pouco antes de deixar o apartamento em direção a sua nova solteirice, bem situada na boca dos 30 (faz 29 anos sob o signo de touro, a moça da cabeleira dourada), ela abraçou a chance de tomar esse caminho tão pacífico quanto desprezado pelos que preferem alongar-se em debates estéreis: de um só golpe, terminou. (...)

A parte demorosa e cansativamente reavaliada que os levara até ali, afinal, já havia acontecido. Bastava olhar para trás, para os últimos meses juntos, e reconhecer: não estava bom para ninguém. O que ela não entendeu, então, foi por que ele não podia perceber essa configuração imensamente favorável, a condição de fazerem um corte rápido e limpo, e aproveitá-la também.

"Do jeito que eu vejo, a conta já "tava" paga: o garçom já tinha passado o cartão na maquininha e até aquele canhoto azul tinha sumido, amassado dentro da minha bolsa. Para que ficar agora sentado à mesa, quebrando palitinhos e discutindo o preço do couvert?"

Escrito por Cecilia Giannetti às 14h56

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Blog Apocalipso A escritora carioca Cecilia Giannetti é colunista da Folha, em que escreve quinzenalmente no caderno Cotidiano.

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